Fiz uma rápida consulta no Google sobre os temas “pai mata filho” e “mãe mata filho”. Em português apareceram 617 mil e 458 mil páginas respectivamente, em francês 1 milhão 840 mil e 1 milhão 830 mil, respectivammente, em inglês 3 milhões e 950 mil e 3 milhões e 700 mil, e em espanhol 2 milhões e 90 mil e 637 mil idem. Eu e mais 99,9 por cento do Brasil tentamos entender como é que pode acontecer este horror de um familiar dar cabo da vida de outro indefeso, ainda criança, seja qual for a razão.
Não conseguimos nos desplugar deste assunto que virou um case, o Caso Isabella. Não tem como. Se você falar com a moça do caixa do supermercado ou com a médica que atende na emergência da traumatologia, não precisa puxar mais que três ou quatro palavras (que horror essa história!!) para o crime vir inteiro, com a estupefação evidente de quem comenta.
Ninguém se mantém alheio ou sem opinião. E a opinião é aquela mesma que hora a hora parece ser reafirmada a cada avanço da investigação policial.
Falei aqui, há duas semanas, nos riscos dos julgamentos feitos pelas mídias em ocasiões anteriores, precedendo mesmo as investigações da polícia e nas injustiças perpetradas. Vejo, agora, um perfil diferente no ar.
Ninguém dos veículos envolvidos na cobertura do Caso Isabella deixa de enunciar a suspeita de que os prováveis autores, aqueles para quem todas as provas colhidas apontam, são o pai e a madrasta da menina. Mas há um cuidado em não apontar diretamente, em não nominar, embora eu tenha visto, nessa sexta, um experiente repórter policial dizer com todas as letras quem são os assassinos. No geral, porém, jornalistas das diferentes mídias tentam ser o mais informativo que podem. O que é difícil: muito acima da questão da competição entre as empresas e as possibilidades de dar uma informação diferenciada no que é, fatalmente, pasteurizado pela cobertura cansativa e repetitiva, existem os sentimentos humanos de quem dá voz a tantas interpretações diferentes: do policial ao familiar dos acusados, da mãe da vítima ao taxista que decidiu contar o fragmento de uma conversa que teve com a madrasta e, quem sabe, ajudar a terminar com este inferno que tem invadido nossas rotinas.
O jornalista aprende, teoricamente, desde que entra na faculdade, que deve ser imparcial. No dia-a-dia das redações e do empurra-empurra das entrevistas dos assuntos candentes, vai aprendendo que não é bem assim, que ninguém consegue ficar à margem de uma opinião. E que o mais difícil de tudo neste exercício, é que uma entonação, uma palavra aparentemente casual num texto, qualquer coisa pode denunciar tudo o que ele pensa e está tentando “vender” para seu público.
Somos, sim, mercadores da palavra. Dos conceitos. Da moral. Não conseguimos, como pessoas de comunicação social, deixar a pessoa jornalista em casa e levar para o trabalho o imparcial, o neutro, o simples “veículo” da informação. Emitimos. Conduzimos. Formamos opinião.
O caso Isabella vai, cedo ou tarde, ser substituído por outro, tão ou mais horroroso. E esse será esquecido. É assim que acontece. Talvez também porque não suportamos a dor por muito tempo. Temos que nos livrar dela. Assim como já nos livramos da dor do caso do menino João Hélio, arrastado e morto aos pedaços, não faz muito, por um bando de assaltantes. Assim como esquecemos Aracelli. Assim como esquecemos Ana Lídia.
E assim vai seguindo a vida. Noticiários que surgem, crescem, dão náusea de tão insistentes e, depois, ficam enterrados em arquivos de jornais e em páginas da internet. Até que a “natureza humana” se manifesta novamente e move toda esta máquina de processar sentimentos que é o jornalismo.
