A revista Imprensa de março de 1989 exibe, como matéria de capa, “O Crime da Rua Cuba – Imprensa sem Ética”, oito páginas que radiografam e criticam o episódio em que Jorge Belmanto Bouchabki, então com 18 anos, foi inculpado, graças à precipitação das mídias e à incompetência da polícia, pela morte dos pais, na véspera do natal de 1988. Resumo da história, para quem não lembra ou não sabe: Jorge e Maria Cecília Bouchabki foram encontrados mortos a tiros em sua casa, aparentemente fechada por dentro. O filho, de imediato, foi eleito criminoso. Jorginho seria acusado e inocentado por duas vezes pela Justiça. Mas o estrago em sua vida já estava feito.
“A família paga o preço da notoriedade. A imprensa é assim, trabalha assim, investir em casos como esse é inerente a ela”, declarou à revista, na época, Nirlando Beirão, hoje colunista de amenidades em Carta Capital e então redator-chefe da Isto É/ Senhor (mais tarde, apenas Isto É).
O jornalista e escritor gaúcho Sérgio Jockymann relembra, para Imprensa, o chamado Caso Kliemann, ocorrido nos anos 60 em Porto Alegre, também insolúvel e que tinha no marido da morta o principal acusado: “Nós, os jornalistas, fabricamos – friamente, com o objetivo de vender jornal –, mentiras no caso Kliemann. Inventamos personagens, como uma dama de vermelho, um motorista de táxi espanhol, uma prostituta misteriosa. Hoje me arrependo, sinceramente, do que escrevi”. Naquele ano de 1963, Jockymann era redator da edição gaúcha de Última Hora, mais tarde transformada em Zero Hora.
Retomo este recorte da história do jornalismo, documentado para sempre pela revista Imprensa, mobilizada pelo que está acontecendo em relação à menininha Isabela Oliveira Nardoni, encontrada morta no jardim do edifício em que viviam seu pai e sua madrasta, em São Paulo. A história confusa contada pelo pai e a igualmente confusa atuação da polícia foram o gatilho que detonou a reação absolutamente emocional não só do público mas até de uma delegada (que não hesitou em chamar o pai de assassino) e, de novo, das mídias.
Esqueceu-se tudo o que estava nas manchetes: o caso do dossiê contra FHC, Dilma Rousseff e sua primeira-secretária, Lula e seus discursos eleitoreiros Brasil afora, todo o esforço para libertação de Ingrid Betancourt das garras dos criminosos das Farc, tudo ficou em segundo plano.
A carnavalização de uma desgraça, como a morte de Isabella, hoje envolve toda a modernidade da comunicação do novo milênio: jornais, tvs, rádios, revistas e o amplo leque da web, com blogs e sites, incluindo os ditos “de relacionamento”. No famigerado orkut, além de safados usarem um link para enviar vírus aos curiosos, eram postadas mais de 40 mensagens de solidariedade por minuto no perfil da mãe de Isabella, nesta sexta. No youtube há desde “homenagens” à criança até reprodução de reportagens sobre a prisão dos acusados.
Qual a responsabilidade das mídias em toda esta confusão social resultante da informação incessante que avança por todos os sentidos do leitor, do telespectador, do ouvinte, do internauta, tendo por base uma morte lamentável que precisa ser esclarecida, é claro, mas que pode se tornar símbolo de dupla injustiça caso condene, previamente, quem não é culpado?
Tempos perigosos, esses. Não faz muito, a gente comentava com a vizinha, em casa, com amigos, por telefone o que achava ou deixava de achar. Julgava e, na hora,condenava ou inocentava com base em simpatia ou antipatia. Isso é do ser humano. Mas a gente sabe bem o que isto faz quando se torna público e amplo. E tem o poder da comunicação social como veículo.
Será que aprendemos, como jornalistas, com as lições do Crime da Rua Cuba, do Caso Kliemann, ou da Escola Base?
