Andei colocando a estante em dia, aqui em casa, selecionando livros reunidos ao longo de mais de 50 anos, separando os mais queridos e tal. Não sou nenhum José Mindlin, mas tenho lá meus tesouros impressos. E me dei conta de quanto título comprado em sebo eu tenho. Por várias razões. Pelo prazer de entrar em salas atulhadas de edições, um aparente caos, aquele cheiro de papel e de tinta diferentes, mistura de épocas, de estilos. Também pelo preço, mas muito mais pela aventura de descobrir uma coleção inteira de Émile Zola, encadernada, e imaginar de qual biblioteca saiu, quem folheou, curtiu aquelas páginas ásperas, quase sempre amareladas.
Sebo é muito bom. Aliás, a palavra que designa este comércio é intrigante, porque coteja algo desagradável com seu oposto – as delícias de fuçar em prateleiras em busca de algo inusitado. Vou mais longe: deveria ser estimulada, nas faculdades de Comunicação, a busca de títulos respeitáveis em meio a livros usados.
No site Bazar das Palavras há explicações para o uso da palavra sebo: uma ligada ao uso de velas para leitura, que deixariam as obras engorduradas, outra sobre estudantes que andavam com livros embaixo do braço obviamente emporcalhando-os.
Mas comecei a falar de livros e de sebo porque perdemos, há poucos dias, um sujeito que nos serviu, a vida toda, um consistente cardápio de livros, em especial os usados. Manoel dos Santos Martins, o Martins livreiro, vai fazer falta, embora tenha deixado os filhos e o genro tocando o grupo editorial que nasceu da livraria que ele plantou aqui em 1956, quando se instalou na esquina da Jerônimo Coelho com a Praça da Matriz.
Nos últimos anos, Martins estava mais em Cachoeira do Sul do que
Lembrei, também, há pouco, que, uma vez, ingenuamente, sugeri a um então editor que o Governo deveria fazer uma parceria com os sebos para abastecer as pobres bibliotecas públicas espalhadas pelo país. Ouvi dele uma resposta irada: que os sebos eram os maiores responsáveis pela falta de sucesso do mercado editorial por “roubar” compradores de livros novos.
Com esta resposta, me recolhi à minha insignificância, mas inconformada com tamanha inflexibilidade, já que, a meu ver, livro novo ou usado vende mesmo é quem sabe oferecer produto de qualidade e conquistar comprador num trabalho de seriedade.
Falo tudo isso porque acho que, nesta terra de imaturidade cultural que é o Brasil, quando morre alguém que tomou alguma iniciativa meritória ficamos tristemente mais pobres. A começar porque nada se pode esperar de uma Internet em que a língua é assassinada, a oferta de “literatura” de má qualidade é acintosa e é visível que está sendo formada uma geração de analfabetos funcionais com diploma universitário.
Seo Martins deixou um legado. Foi um self made man corajoso e exemplar. O mínimo que ele merece é ser o principal homenageado da Feira do Livro deste ano. E pena que isso não tenha acontecido em seus 80 anos de vida.
