Domingo, agora, o Brasil acorda com uma nova emissora de televisão. A TV Pública entra no ar parasitando a TVE Brasil, numa dessas estranhas soluções que só o jeitinho nacional é capaz de conceber. Muito se esperneou questionando o que realmente representa a já apelidada TV Lula no cenário da comunicação brasileira, mas venceu o mais forte – o poder. Agora, é aceitar o que foi imposto sabendo, de antemão, que, diante da situação de todas as empobrecidas televisões estatais, o cidadão deve ficar atento e cobrar cada ação do que chega com um selo que lhe garante posse: pública.
Quanto a sua árvore hospedeira, a TVE Brasil, compreensivamente vive o desconforto de não saber para que lado vai e o que será feito de seus funcionários. Beth Carmona, presidente da Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto), entidade que atualmente dirige a TVE que foi transformada em organização social (Oscip) em 1998, há alguns meses deixou clara sua insatisfação e decepção com a invasão branca da emissora: “É uma descontinuidade. E é um pouco isso o que a gente vê no histórico destas emissoras educativas. Na verdade, nem sempre ela é tocada por profissionais, nem sempre ela está livre de interferências e por isso que o trabalho de TV pública no Brasil é uma eterna construção. Eu não me arrependo de ter feito esse trabalho. Eu não me sinto envolvida nesse projeto, eu não fui envolvida nesse projeto”.
Tendo Tereza Cruvinel à frente, a TV Pública vem de eleger seu hipereclético conselho, com direito a DJ (MV Bill) e a um sempre polêmico economista (o ex-ministro Delfim Neto). Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, declarou, esta semana, que “a idéia não é ter pessoas que fazem TV, mas que vêem TV, que são capazes de ter um espírito crítico para o que é apresentado”. Justifica as escolhas, feitas aparentemente a dedo por Lula? Isso é a expressão da democracia ou de um populismo interesseiro? Só vamos saber com o andar da carroça se, como diz Martins, nenhum deles será “pau-mandado do Governo”.
E ainda falta definir, bem claramente, de onde virá o dinheiro para fazer esta máquina estranha funcionar.
Não se trata de hostilizar a idéia da TV Pública que, em alguns países, com diferentes soluções de autogerenciamento, realmente importa para a população. A BBC é apontada como modelo de sucesso (90 por cento dos britânicos garantem-lhe audiência), a CBC canadense não poupa os políticos em sua programação, já a Telefrance 1, que integrava o pool em mãos do governo, foi vendida em 1987 para acionistas e hoje é a mais popular da França.
O que acontecerá com a TV Pública brasileira, especialmente quando seu patrono deixar o trono em Brasília? Para quem ela se dirige – afinal, se é pública, deverá atingir todos e não apenas os que optam por não ver os canais comerciais. Quem, no fundo, a fará?
Oxalá não ocorra o desmonte de uma emissora que está dando certo (a TVE Brasil) para a implantação de um temporário sonho de interesse partidário de fim anunciado.
