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Feios, sujos e maus

Somos, nós, da imprensa, maus? Do tipo que bota faca no pescoço de pobres inocentes? O assunto ainda está quentinho, logo esfria, mas ainda …

Somos, nós, da imprensa, maus? Do tipo que bota faca no pescoço de pobres inocentes? O assunto ainda está quentinho, logo esfria, mas ainda está no ponto para ser degustado.

Mas é tragicômico ver um ente poderoso como o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski com essa fragilidade de menino traído pelos integrantes do grupo rival da rua reclamando e se justificando que “foi um desabafo”. E ainda compara a sua situação a de “uma vítima de batedor de carteira”.

Já tinha visto a imprensa ser chamada de muita coisa, mas de ladrão de carteira, é a primeira.

O nobre ministro não é debutante em imbróglio do tipo. Primeiro, foi um diálogo por computador, revelado por O Globo, em que escreveu que alguns ministros poderiam trocar de posicionamento no julgamento do mensalão. Podia ter tomado mais cuidado, por se saber na berlinda. Mas não: num restaurante, atendeu o telefone e, nada discretamente (se tivesse sido, ninguém ouviria), disse a célebre frase sobre estar com a faca no pescoço e temendo um possível amaciamento no julgamento do famigerado José Dirceu. Culpa do celular, este aparelho diabólico que terminou com a privacidade – em especial dos que têm de ouvir conversa alheia.

Convenhamos: quer dizer que se todo o restaurante tivesse ouvido mas o Estadão ou outra mídia não houvesse publicado, tudo bem? O que incomoda a quebra da privacidade não é o fato e sim o número de pessoas que a ela tem acesso?

Reinaldo Azevedo, em seu blog, bate bem:Fomos assaltados pela vulgaridade. O sacerdócio está entregue ou à má-fé ou aos trapalhões. A patetada protagonizada pelo ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, que sai comentando ao telefone, em lugar público, o resultado de um julgamento, dá conta de que os ritos estão sendo oficiados não por sacerdotes, mas por noviços deslumbrados, que ignoram o decoro e o princípio.”

E como ficam os “batedores de carteira”, usurpadores da intimidade-dividida em público do ministro? Não faltará quem diga que a repórter que testemunhou o “desabafo” e o divulgou é uma oportunista sem ética, uma desalmada que não tem pena de um homem angustiado, desacostumado às pressões e ingênuo como anjinho de procissão, a ponto de falar alto sobre um tema polêmico num ambiente que nunca poderá ser confundido com um quarto ou um birô particular.

Não sei por que, mas a figura do desembargador me trouxe a lembrança de um personagem interpretado por Peter Sellers na comédia The Party (Um Convidado bem Trapalhão).

E vale a dica do filme para quem quer esquecer um pouco toda essa chatice: passe na locadora e pegue o DVD. É muito mais divertido que esta tragicomédia da vida real.

Autor

Maristela Bairros

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