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O bom jornalismo. Sem ironias

Jornalismo investigativo transposto para livro às vezes dá uma cruza de deus me livre com cruz-credo, de tão ruim. Há pencas, nos catálogos das …

Jornalismo investigativo transposto para livro às vezes dá uma cruza de deus me livre com cruz-credo, de tão ruim. Há pencas, nos catálogos das editoras. Mas destes não vou me dar o trabalho de falar. Quero enumerar três daqueles com os quais vale a pena gastar os olhos. Um é O Vulto das Torres, do Lawrence Wright. Cinco anos de trabalho para tentar fazer o que nenhum jornal ou revista ou outra mídia qualquer fez desde o 11 de setembro: dar subsídios reais para que se possa tentar entender a razão de a nação mais poderosa e bem guardada do mundo ter sido devastada por um conjunto de atentados terroristas inédito e aparentemente surpreendente.

Mais que traçar a origem da Al Qaeda e de Bin Laden, o autor escancara a fragilidade dos serviços de inteligência dos EUA – CIA e FBI – por uma absurda disputa interna de poder. Wright não afirma, mas deixa claro que o maior inimigo dos americanos estava dentro de casa, sonegando informação que poderia ter evitado o morticínio e o posterior surgimento de diferentes teorias conspiratórias de fundo racial ou econômico. O livro é claro, não desperdiça tempo com literatices e deve servir de exemplo para professores interessados em formar candidatos a jornalistas por seu texto exato e ético e pela seriedade da pesquisa.

Com qualidades quase semelhantes e acrescidas de um humor na medida, Barbara Ehrenreich tem uma dobradinha de títulos resultantes de um trabalho de investigação em que o jornalista (numa atitude de falsidade ideológica, sejamos francos, por forjar um personagem, com vida falsa) mergulha em mundos diferentes para revelar o que vê sem maquilagem. Em Miséria à Americana, ela se passa por uma mulher de meia-idade desempregada para ver como sobrevivem os que trabalham como atendentes de lanchonete, camareiras de hotel e faxineiras de empresas de limpeza. A decepção fica por conta de sinceras revelações de Barbara, como admitir que não mergulhou totalmente no papel, se dando o luxo de passar fim de semana em casa para se desestressar, e que foi desonesta diante de exames para flagra de drogas – ela puxou seu fuminho e achou um jeito de mascarar o efeito na coleta de urina. Mas a leitura é reveladora, cheia de dados informativos que corroboram a história.

Seu outro livro, na mesma linha, é Desemprego de Colarinho Branco, em que tenta uma vaga em alguma corporação como RP, outra simulação de identidade. Já amaciada pelo livro anterior, ela parece mais segura no texto e nas interpretações destemidas que apresenta. De descrições escatológicas em Miséria, ela transita para um relato mais elegante e nem por isso menos contundente sobre o sonho americano de ser bem-sucedido.

Barbara e Lawrence são tão diferentes quanto água e óleo, em especial quando lidos em curto espaço de tempo, quase ao mesmo tempo e comparativamente. Mas merecem a grana e a visibilidade que ganharam, porque, acima de tudo, mostram que, por trás de um texto jornalístico mais permanente, há comprometimento com o trabalho.

Autor

Maristela Bairros

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