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Teia do tamanho do mundo

Ele tem pavor de uma rede que não enriqueceria mais seus usuários, e sim apenas seus dominadores. Ele se diz preocupado com a volta …

Ele tem pavor de uma rede que não enriqueceria mais seus usuários, e sim apenas seus dominadores. Ele se diz preocupado com a volta do processo de centralização de dados pessoais nos servidores dos grandes grupos que escapam de todo o controle. Ele é o engenheiro belga Robert Caililiau que, juntamente com Tim Berners-Lee, seu colega no CERN – Organização Européia para a Pesquisa Nuclear, desenvolveu a World Wide Web e seus protocolos. “Nós criamos e desenvolvemos as interfaces de tela tátil, as redes de comandos. Foi no CERN que nós conseguimos promover esta revolução, que não tinha equivalente em nenhum outro lugar do mundo”.

As características básicas do CERN são seus princípios democráticos, com intercâmbio de informações entre centros semelhantes, uma utopia que funciona e atrai os mais renomados físicos mundiais. Foi isto que atraiu Caililiau, apaixonado pelo desejo de uma regulamentação mundial capaz de transcender os egoísmos nacionais e o aprimoramento das relações entre o homem e a máquina. Em 1989 Berners-Lee propôs tornar acessível toda a documentação do CERN, conectando entre si dois elementos que já existiam: o princípio do hipertexto (que permite pular de uma informação contida num documento para uma outra situada em outro lugar) e uma rede de computadores conectados entre si, a internet. Em função de seu enorme sucesso, a Wold Wide Web, “teia do tamanho do mundo”, um nome provisório que, como acontece com freqüência, se tornou definitivo.

O projeto de três pilares

Um ano mais tarde, em 1990, Berners-Lee e Caililiau, entusiasmados, redigiram juntos o projeto que definiu os seus três pilares: os endereços WEB (ou URL em linguagem técnica), a linguagem do hipertexto (HTML) e o protocolo de transferência do hipertexto (HTTP). No CERN, o sucesso imediato da lista de telefones e endereços e o intercâmbio com o banco de dados californiano de partículas demonstraram o interesse pelo sistema.

“Mas não se deve acreditar que era o único no mundo”,diz Caililiau. “Outras redes de conexões por meio de hipertextos já haviam sido desenvolvidas em diferentes universidades. A nossa era até mesmo a mais fraquinha, tão rudimentar que uma revista especializada havia se recusado a publicar um artigo a seu respeito. As outras eram concebidas para revisar todas as suas conexões ao menos diariamente e para eliminar aquelas que não funcionavam mais. A nossa tolera esses erros. Esta simplicidade deixou os especialistas ouriçados, mas foi ela que permitiu que a WEB alcançasse uma dimensão mundial, enquanto os outros sistemas ficavam atravancados pela sua sofisticação”.

Busca do internacionalismo

Tão logo foi colocada à disposição do público depois da fase experimental no CERN, em 1992, a WEB conheceu uma expansão vertiginosa. Caililiau dedicou-se então a ampliar sua difusão. As suas discussões com dirigentes da União Européia, suas conferências nos mais diversos países, exerceram um papel crucial neste desenvolvimento. Para este neto de oficial de alfândega, europeu convicto, este internacionalismo se impôs naturalmente.

Agora residindo na França, como integrante da WEB Consortium, presidida por Bennet-Lee, ele luta pela manutenção desta plataforma como padrão internacional e pela implantação de um organismo de regulamentação mundial para afastar seus temores. Aposentado do CERN, julga que viveu “uma aventura maravilhosa”. Os sucessos financeiros de um Google, Amazon ou Yahoo! não lhe causam nenhuma inveja. Aos 60 anos, vive de sua aposentadoria.

“Os primeiros a terem uma idéia não são os mais bem situados para dela perceberem todas as conseqüências, principalmente as comerciais”, diz. “Isto requer outros talentos: qualidade de gestão de empresas, o senso dos negócios. O que nós fizemos foi uma plataforma, um padrão, um produto. As duas condições para uma popularização rápida eram o livre acesso e a gratuidade, distantes de toda a consideração mercantil”.

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Autor

Iara rech

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