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Para o Alemão, do BBB7

Pois é, Alemão. Assim como você, eu também fiquei perplexa quando soube que o rico milhão de reais ia para as suas mãos. Que …

Pois é, Alemão. Assim como você, eu também fiquei perplexa quando soube que o rico milhão de reais ia para as suas mãos. Que tal, hem? 26 anos, sarado, cheio de manha, fazendo o tipo filho admirador do pai, cheio das gatas e milionário da noite para o dia! Quer dizer: várias noites e vários dias de muiiiiiiito sacrifício, naquele confinamento horrível, aquela piscina detestável, todo aquele equipamento de ginástica para ter de matar tempo, quanta obrigação! Entendo sua perplexidade, do alto de sua cabeça loira, cheia de idéias empreendedoras (afinal, você se anunciou no seu perfil do BBB como “administrador”, embora não se saiba de quê) para, como bem nutrido filho da classe média brasileira contribuir para melhorar a vida neste Haiti travestido de Canadá. Você tinha mesmo de ter gritado que não acreditava que tinha ganho 1 milhão de reais! Porque só num país sem noção como esse um programa premia alguém com esta quantia ofensiva para 90 por cento da população por ficar semanas longe deste insensato mundo apenas exercendo maquinações para não cair fora do jogo. Você está certo: é incompreensível mesmo o que ocorre. Ainda mais incompreensível é as pessoas lhe darem 91 por cento de apoio para você entrar pelado e sair cheio da grana desta ilha da fantasia que imobiliza milhões de criaturas diante de uma tela de televisão. Sabe, Alemão. Eu conheço uma moça, uma manicure, que veio da roça e, inconformada com o fato de ser órfã e pobre, aprendeu a fazer pé e mão e foi à luta. Ela tem um filho de seis anos. Levanta com ele, antes das 6 da manhã, e muitas vezes pega 2 ônibus, com o menino a reboque, para, antes de chegar no salão em que trabalha, fazer mão e pé de clientes em domicílio. Muitas vezes, ela está chateada, mal-humorada, porque o marido está desempregado, as contas estão se acumulando e ela simplesmente não tem mais o que fazer para honrar seus compromissos. Mas ela continua saindo da cama cansada, preparando o lanche do filho, passando o domingo cuindando da casa e tocando seu barco. Ela é uma das telespectadoras que acompanhou sua trajetória no BBB7 e acho até que torceu por você. Mas, Alemão, ela nunca teve ou terá a sorte que você teve de ser escolhido para estrelar este show patético tampouco para levar a bolada para casa. Não. Ela não é feia, ao contrário, e, tivesse tido quem sabe alguém a incentivar, estaria, como tua namoradinha Siri, fazendo suas fotinhos para sites ditos sexies. Quem sabe? Mas a manicure de que te falo é um dos milhões de brasileiros que precisam trabalhar duro para viver. Sem glamour. Sem muitas perspectivas. Nem expectativas. E ainda é tão solidária que, esta semana, me incentivou a pensar positivo, porque ela mesma fez isso e acha que está saindo da má fase. E dê-lhe ônibus com o filho pela mão, dê-lhe domingos de lavar e passar roupa. Confinada, como você, Alemão, na vida. Só que sem um aporte global. Sem espelhos reveladores para o público. Sem jogo feito. Portanto, caro Alemão, curta bem seu dinheirinho. Aproveite, garoto. Mande qualquer indício de remorso por ser um oportunista em meio a tanta privação coletiva e namore sua Siri descansado. Empreendedor como você deve ser, em breve vai multiplicar este milhão. Em breve, você será esquecido, tomara que não vire notícia por brigar em festa, como alguns de seus antecessores. Tomara que use os músculos e a esperteza para fazer alguma coisa pelo bem comum. Mas já estou exigindo muito. Você é apenas o vencedor de um reality show, que de realismo não tem nada, mas deixa pra lá, isso é outro papo. Meu filho, o que importa é o seguinte: você estava na Globo! E ganhou 1 milhão! Dane-se o resto.

Autor

Maristela Bairros

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