Colunas

Natal ainda existe?

Aeroportos em crise, deputados calhordas querendo ganhar um salário que não merecem, amigos sendo vítima de seqüestro-relâmpago, calor de Saara: teríamos bons motivos para …

Aeroportos em crise, deputados calhordas querendo ganhar um salário que não merecem, amigos sendo vítima de seqüestro-relâmpago, calor de Saara: teríamos bons motivos para comemorar o Natal? E o jornalista da Globo envolvido com a máfia das máquinas de jogo? Chique, não? Estaria ele mesmo fazendo pesquisa de campo para realizar a matéria da sua vida?

Quando comecei no jornalismo (lá vem remembranças…), em ficava encantada com colegas que se vestiam de mendigos e iam viver na rua para fazer o que se chamava “materinha humana”. Estes eram os jornalistas verdadeiros, aqueles que se despiam de sua condição de observadores distantes da realidade para mergulhar no mundo de verdade do objeto de seu trabalho. A moda não passou e não vai passar. Tem gente escrevendo livro, em estilo rococó, contando histórias do que poderíamos chamar os bastidores da vida, de gente comum que termina sendo notícia por ser tão comum que ninguém percebe.

Alguém já disse que a história de cada ser humano é importante e daria um ou mais livros. Até concordo. Só que hoje me aborrece e me dá, no mínimo, bocejo, certo tipo de jornalismo-literário que visa a arrancar lágrimas dos incautos, como fazia aquele autor do livro mais meloso do século, Meu Pé de Laranja Lima. Quem lembra disso? Os mais antiguinhos, como eu, devem lembrar.

A gente tem, com certeza, um pé na tragédia e sabe que emoção vende. Eu mesma adoro escrever sobre as histórias dos cachorros que tive e tenho e nessa hora se perde o pudor, embalado pela bobeira do momento, e se termina até (supremo pecado!) enviando estas literatices para os pobres amigos e conhecidos. Assumo, assim, minha parte na patacoada jornalisteira. Escrever com “sentimento” é tentação para todo o qualquer jornalista, talvez pela chatice que é ser objetivo e seco o tempo todo.

Há alguns anos, fiz longa pesquisa no arquivo do Correio do Povo e perdia um tempo imenso tentando achar a informação na matéria, já que, não faz muito não, nariz de cera, aquela introdução patética que o jornalista se permitia fazer, era tudo. A notícia, mesmo, estava lá pelo meio o fim da matéria.

Carlos Reverbel comentou, sempre, com muito bom humor, esta mania das redações, e dele próprio, em fazer historinhas antes de entrar direto no assunto. Pois hoje, lendo as nossas revistas mais conceituadas de informação, tenho notado esta tendência pelo retorno do tal nariz de cera. A conquista do lead contendo praticamente um resumo do que se ia dizer a seguir parece que está entrando em esquecimento. Aliás, hoje a turma está babando feio, tanto no texto quanto na edição. No Terra, esta semana, um jornalista que acompanhou a chegada do Inter depois da vitória no Japão, escreveu uma matéria de 40 linhas da qual se aproveitava um parágrafo com informação real. A manchete era fatal: teria havido tumulto na chegada dos campeões. Ao ler o texto, o tumulto era uma moto que havia batido num carro, alguém que abrira a porta do carro e quase (eu disse quase) batera numa pessoa e, pior dos tumultos, as buzinas ensurdecedoras.

Sim, buzinas ensurdecedoras. Gostaria muito de conhecer buzinas que não são ensurdecedoras! Então, cadê o editor que deixou passar esta bobagem?

Mas eu estava falando de coisas natalinas e terminei divagando. Talvez porque o clima natalino não esteja mais lá estas coisas. Ou eu o tenha esquecido. De todo modo, feliz natal e feliz 2007 a todos. E que venha o bom jornalismo.

Autor

Maristela Bairros

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.