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Eu, ex-classe média, não suporto mais debate

Tem gente que faz sinal da cruz e se joga no chão quando se fala em debate político – inclusive no meio da comunicação …

Tem gente que faz sinal da cruz e se joga no chão quando se fala em debate político – inclusive no meio da comunicação social, colegas nossos mesmo, jornalistas e tal. É tanta a ojeriza (que as pesquisas não computam e deveriam computar) que nem mesmo a obrigação profissional consegue fazer com que estes comunicadores sentem diante da tv e assistam aos programas. Eu, apesar de ser ranzinza, eternamente crítica, chata assumida, tenho tentado cumprir meu dever não só de jornalista mas principalmente de ser humano que quer, pelo menos, ver o que está rolando para poder falar mal. Ou bem. Mas está difícil falar bem dos debates. Em especial dos que envolvem Lula e Alckmin. Não sei o que está se passando com os assessores de ambos (quer dizer, até sei, mas prefiro não falar, neste momento), só sei que esqueceram completamente regras básicas de comunicação, começando pela linguagem clara e direta. Viram o debate desta quinta, no SBT? Que inferno aquela sucessão de números, porcentagens e siglas! É enlouquecedor saber que os dois querem votos de uma população em que a grande maioria mal junta duas frases com coerência e ambos, Lula – que se diz do povão – e Alckmin – que diz ter sido criado na roça –, falem com tamanha soberba. Devem se achar num auditório de Harvard, falando para um público com nota dez em economia e finanças.

Chega a ser patético ver Lula puxando papéis para ler, de enfiada, a lista de obras “bem sucedidas” nas áreas da saúde, por exemplo. O homem chega a salivar e a tropeçar nas letrinhas e números, porque, com certeza, está engessado por um assessoramento mesquinho não só para com ele mas, especialmente, para com o público. Alckmin não faz diferente e, apesar de médico, com ao menos uma dicção muito melhor que a do oponente e óbvia qualificação escolar e profissional acima da de Lula, se enrola em números e palavras, o que demonstra que está atuando igualmente amarrado por um roteiro que não é seu habitual. Pior: criaram, agora, a modinha de, como se diz em teatro, “quebrar a quarta parede” e se dirigir diretamente ao espectador.

Eu me sinto insultada a cada vez que me dirigem a palavra me chamando a atenção do tipo “veja, você que está em casa, o que diz o candidato” ou “meu amigo, você me conhece”. Enquanto rola esta peça de má escritura dramática com atores mal dirigidos, minha vida se esvai. Minutos preciosos da saúde física e mental de todos os brasileiros (ao menos todos que, como eu, teimam em assistir os debates e propaganda eleitoral) se vão para nunca mais voltar. Acho que a minha angústia é a mesma de muita gente: que tudo passe logo para que se volte a uma “normalidade”.

É tão duro ficar no meio desta peleia de palavras ao vento que a gente até esquece do principal: que o cara que vai assumir aquele trono em Brasília tem de ser capaz de terminar com todo o acinte do roubo a céu aberto da companheirada e de quem mais houver. Que deve se preocupar em dar um jeito de fazer com que os empregos não sejam cabides, em especial no serviço público, e que botar dinheiro na mão de pobre do jeito que é feito é esmola, só troca de lugar: em vez de sinaleira, recebe em casa. Que deve se lembrar que vive numa terra de gente confusa que vê muita televisão e, muitas vezes, confunde páginas da vida de novela com páginas da vida real. Que Deus nos dê sanidade para suportar tudo isso.

PS: No debate desta quinta, descobri porque minha vida e a de metade do País endureceu tanto nestes últimos quatro anos: o presidente explicou que um número muito grande de brasileiros “subiu” para a classe média. Eu sou uma das que, achatada pela política da companheirada, fui descida para a classe ex-média.

Autor

Maristela Bairros

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