Prevalecesse a vontade de Norte e Nordeste, Lula estaria reeleito no primeiro turno. Falasse mais alto o desejo de Sul e Centro-Oeste seria Alckmin a comemorar o êxito precoce. Valendo a preferência do Sudeste, teríamos segundo turno, mas com Alckmin à frente no primeiro. A parte de cima do Brasil reelegeu Lula, enquanto a debaixo escolheu Alckmin para governar o País. Tal fenômeno, que contrapõe duas partes de uma nação, não é exclusividade do Brasil. Costuma ocorrer – embora às vezes com efeito inverso – em países de dimensões especialmente grandes e cuja história de desenvolvimento se deu em uma só direção, caso do Brasil, ou nos quais o perfil econômico é claramente dividido em rural e urbano, caso dos Estados Unidos e, de certa forma, também do Brasil.
Nas últimas eleições presidenciais americanas, George W. Bush lavou a alma no Sul e no Meio-Oeste, cujo perfil mais rural traz embutidas questões por certo polêmicas e discutíveis, mas necessárias a qualquer análise séria do quadro eleitoral, como racismo, intolerância sexual e espírito beligerante. A despeito do paradoxo, o caipira John Kerry levou a melhor no Norte mais desenvolvido simplesmente porque os eleitores identificaram nele um inofensivo conservadorismo em contraposição ao radicalismo de direita de Bush. Na soma geral dos 50 estados, Bush ganhou, mas por pouco. No pleito anterior, Bush perdera para Al Gore justamente devido aos votos do Norte. O primo menos brilhante de Gore Vidal só não levou por obra de fraude descarada, omissão da Suprema Corte e indiferença da população, talvez enfastiada por dois séculos de democracia.
No Norte-Nordeste brasileiro, histórico curral do coronelato político, o poder de barganha do governo é maior, em especial se os mandatários do poder exercem um clientelismo sem pudores ou, parafraseando velhas campanhas do PT, sem medo de ser feliz. Índices mais dramáticos de pobreza se convertem em campo fértil para a distribuição de bolsas, cestas e auxílios em geral. Por que tirar da Presidência o homem que garantiu um dinheirinho mensal em troca de compreensão em relação ao nível de desemprego, à péssima qualidade do atendimento de saúde, à ausência de segurança ou de educação básica minimamente satisfatória?
Ética, transparência, gestão séria e profissional, isto é papo de burguês que nunca soube o que é passar fome, e estes estão nos Estados debaixo, que nunca pensam na situação dos desprovidos irmãos de cima, exceto na hora de fazer piada. Filosofia não enche barriga, bolsa-família sim, ainda que de forma precária. Enquanto houver pobreza, haverá assistencialismo, alicerçado em uma lógica irrefutável: clientelismo ou não, ajuda a matar a fome. Portanto, vale alguns milhões de votos. É óbvio que só isso não explica o fenômeno, que é bem mais complexo. Mas o resto é papo de botequim.

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