A notícia de que um dono de banca de revistas de Porto Alegre decidiu não vender as revistas Veja e Época merece reflexão. Não concordo com alguns argumentos do moço que, pelo perfil (embora faça questão de se descolar do petismo e do lulismo), é um simpatizante da turma que adora citar o Fórum Social Mundial como referência. A história de que Veja se calou no governo FHC e agora ataca Lula e o “honorável” companheiro Chávez, da Venezuela, é conversa de quem é imaturo demais para entender circunstâncias e balizar diferenças. Também não entendi a bronca dele em relação ao episódio ditatorial do Planalto quando quis expulsar o jornalista americano por ter insinuado que Lula seria alcoolista. Ele também ficou me devendo a razão de estar de bico com Época por causa das matérias sobre o mensalão.
O rapaz, com certeza, é um bom marqueteiro e achou um jeito de ser diferente e virar notícia, como, de fato, ele e sua banca viraram.
Está certo ele. Liberdade de expressão não pode ser apenas papo de seminários entre nós, jornalistas, na hora em que somos agredidos. Tem de existir, assim como nosso exercício constante para aceitar, mesmo sem concordar com, as diferenças de opinião. Houve época em que precisamos subir nas tamancas para combater os que tentavam (e quase sempre conseguiam) nos sufocar em nossa tarefa de informar. O Pasquim é símbolo dessa época, especialmente pelo bom humor ferino com que tratava a dor. Mas nem todos eram nanicos e charmosos. Os grandes também reagiram, e bem me lembro das colunas de receita no Estadão substituindo textos censurados.
Isso já passou, é memória. Ninguém pode se queixar, hoje, de não poder escrever e falar o que quer. Muitas vezes, se faz isso sem critério e o moço da banca tem lá seu quinhão de razão – não são um nem dois que foram massacrados por linhas equivocadas. Agora, meu caro amiguinho estudante de História, tão bem-intencionado: defender Hugo Chávez é dose! Ele é, de fato, um bufão. Só que um bufão perigoso, que pode detonar reações seriíssimas com esta mania de cutucar leão com vara curta. E a história do mensalão e outras denúncias, isso tem de vir à tona, sistematicamente, são podridões que precisam ser mexidas como se espreme um furúnculo para sair o pus e, depois, tentar a cura.
Falo tudo isso porque ainda estou sob efeito do debate-conversinha doce da Globo, de ontem, quinta, ao qual Lula não foi. No formato eleito como o mais adequado para estes tempos, todos os candidatos conversam como se estivessem sentados tomando conhaque à frente da lareira. E, o mais engraçado, o que um fala serve de gancho para o outro. São as alianças em gestação, porque ninguém é bobo para pensar que vai governar sozinho e majoritário.
Nós, jornalistas, nesta hora, agimos como animadores de auditório, anunciando a atração e, pedindo desculpas, interrompendo textos decorados e padronizados graças à ação de outros jornalistas como nós que vivem do trabalho de assessores de comunicação. O melhor do debate, então, ficou para as perguntas à cadeira vazia, o que me fez lembrar de peças do teatro do absurdo.
Perguntar ao nada pode ser simbólico. Lula não foi, a Globo não ia desmanchar aquele lindo cenário tampouco desfazer a elegante entrada e saída dos candidatos rumo ao púlpito. Optou por deixar a cadeirinha do ausente ali, marcando lugar. Quem sabe, ele mudaria de idéia e irromperia no estúdio, numa ação dramática estudada e capaz de alavancar mais ibope?
Nessa hora, concordo com o moço da banca de revista em sua revolta contra veículos que ele considera não merecedores de seu trabalho de vendedor: ao deixar Alckmin, Buarque e Heloisa Helena falando para a parede, ou melhor, para a cadeira, a Globo tornou mais forte a presença de Lula, aquele que hoje troca a esperança pelo medo ao fugir do combate. Fugir: será mesmo? Sei não. Com a sofisticação das técnicas de marquetingue político e eleitoreiro, já estou achando que foi tudo muito bem arranjado. Eu, aqui, vou continuar lendo a Veja e, em especial, o Mainardi. E todas as publicações que trazem a lama para o ventilador. E recomendo ao moço da banca que repense a opção dele: ele está, simplesmente, exercendo, pessoalmente, a censura, retomando o velho e horrendo modo dos que, um dia, nos amordaçaram.
