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Sobre excesso de TVs e desrespeito às mulheres

Duas notícias desta sexta-feira me chamam a atenção na web. Uma, sobre a existência de um número de televisores maior do que o de …

Duas notícias desta sexta-feira me chamam a atenção na web. Uma, sobre a existência de um número de televisores maior do que o de moradores nas casas dos Estados Unidos. Existiriam 2,73 televisores para 2,55 moradores. Mais: cada televisor fica ligado oito horas por dia e o espectador assiste a quatro horas e meia de programação diária. Fora os fantasmas, com certeza, que devem ficar diante dos aparelhos que ninguém olha.

Impressionante isso. Tenho uma amiga cujos pais são pessoas humildes. Mas têm um televisor em cada peça da casa. Inclusive no banheiro. E vivem trocando por modelos mais novos!

Sou do tempo do televizinho: quem não tinha o aparelho em casa, tomava banho de tardezinha e ia pegar uma beirada no sofá da casa do vizinho afortunado que tinha em sua sala, em lugar de honra, um monstrengo com tela cheia de chuvisco e, maior luxo, uma espécie de chapa de radiografia em faixas coloridas para dar a impressão de “TV em cor”!  Menina, eu me oferecia para cuidar dos filhos de uma vizinha só para poder ver, aos sábados à tarde, Disneylandia. Agora me vem esta notícia de que temos mais tvs que gente dentro de casa. Será uma tendência? A que ponto somos instados a ficar por dentro de tudo que já nada nos resta a não ser nos rodearmos de aparelhos que, mesmo que fiquem ligados para as paredes (expressão bem da minha mãe), marcam presença. Talvez aprendamos por osmose, sei lá.

Outra notícia que me pegou mal no humor foi a do comercial cretino que está sendo alvo de uma ação judicial e que, na velha e boa maneira machista, tira sarro das mulheres. Trata-se de um comercial de cerveja que mostra a mulher, em  duas diferentes épocas, passando trabalho para estacionar seu veículo enquanto barbados tomam cerveja olhando a cena e debochando da manobrista. A vida passa, mudamos de século e a sacanagem continua a mesma em relação ao mulherio. Queimamos sutiãs, tomamos pílula para não engravidar sem o desejar, acumulamos fraldas com computador, conseguimos ir para outros países para fazer pós-doutorado. Ainda não conseguimos salários equiparados, uma rotina doméstica bem dividida que não represente acúmulo de tarefas mas o pior: não obtivemos respeito. Já nem digo desrespeito dos homens especificamente, mas também das mulheres, que ainda não conseguem mostrar  que não são iguais aos machos, mas diferentemente melhores em muitos aspectos.

Ando meio cansada de ver e conviver com mulheres oprimidas mas que, na primeira chance, viram opressoras. Outras cheias de planos mas, na primeira dificuldade, debandam e choram fechadas no quarto. Também estou de saco cheio com meninas que mal começaram a ovular e ganham milhões por minuto apenas por serem secas, assim como as secas que ocupam o noticiário porque resolveram transar a céu aberto –coisa que levaria qualquer mortal desconhecida à prisão, por atentado ao pudor. Enfim, estou chateada da vida com tanta falcatrua. Falcatrua que entra pelos nossos poros via textos jornalísticos e publicitários e se repetem, repetem, repetem pelas casas do mundo afora, mesmo que, diante do televisor ligado, não haja ninguém assistindo.

Autor

Maristela Bairros

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