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O choro do crocodilo como notícia

“Daniel começou a chorar compulsivamente e foi retirado da sala de audiência juntamente com seu irmão Cristian.” Compulsivamente. O adjetivo, mais uma vez, diz …

“Daniel começou a chorar compulsivamente e foi retirado da sala de audiência juntamente com seu irmão Cristian.”

Compulsivamente. O adjetivo, mais uma vez, diz tudo. Ou força o olhar (ou o ouvido) a se fixar na ação fazendo com que o resto fique em segundo plano. A frase é parte de notícia no Terra sobre o julgamento do trio pelo assassinato dos pais de Suzane von Richtofen, este teatro de má qualidade que assombra todo mundo e ninguém consegue ignorar.

Depois dos depoimentos das estrelas do Mensalão e da advogada de Marcola, eis que a mídia tem novo prato cheio para se entreter – o crime dos von Richtofen. Em tempo real, se possível.

Não tem guerra de Oriente Médio nem tsunami – a missão, que se equipare a um tema tão mobilizador quanto o parricídio. Ainda mais quando o sobrenome tem von no meio.

Semana passada, falei no caso de Lady Di e as fotos de sua agonia divulgadas na Itália e quanto ainda existe público para este assunto, já quase dez anos passados da morte da princesa.

Quantos anos teremos de curtir o caso dos Richtofen? Quando virão os livros, com os bastidores do julgamento, as novelas com citações, minisséries, quem sabe?

O assunto rende. Do ponto de vista da comunicação, não se tem como negar que é notícia e, como tal, tem de ser explorado. Questões de justiça à parte, um crime como esse não passaria batido, nem que fôssemos todos alienados, e merece a posição de destaque que desfruta.

Porém, há uma náusea rondando esta superexposição toda que não consigo evitar e, como eu, muita gente.

Chegamos ao requinte de mostrar o produto falando direto com o público: veja as fotos, confira a cronologia, veja as contradições. O jornalismo, hoje, faz picadinho da notícia para que ela possa render o máximo possível. Notas curtas e seqüenciadas. Boxes. Infográficos. Linha de tempo! Vídeos.

“Brilham” os advogados. Suzane faz caras e boca (amanhã ou depois, vai ganhar muiiiito mais dinheiro do que com a herança lançando alguma coisa tipo livro à exemplo de Bruna Surfistinha). Os Cravinhos choram, coitados! Andy Warhol tinha razão: todo mundo tem seus minutinhos de fama. Dependendo da sorte, muitos minutinhos. Graças, em especial, a nós, jornalistas, na luta em nossa missão de “bem informar”.

Autor

Maristela Bairros

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