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A idéia é ser útil

Há anos, minha irmã Célia, socióloga da mesma turma de Ruth e Fernando Henrique, mas também psicóloga, talvez tentando entrar no meu mundo mais …

Há anos, minha irmã Célia, socióloga da mesma turma de Ruth e Fernando Henrique, mas também psicóloga, talvez tentando entrar no meu mundo mais interior, perguntou qual seria o slogan que eu faria para mim mesmo. Isso obrigou-me a uma introspecção e gerou a resposta que – expliquei – ainda que fosse uma criação da Fiat Brasil era a que mais se aproximava do meu desejo pessoal: “A idéia é ser útil”.

Acho que inaugurei esse propósito ainda bem jovem quando, em São Paulo, estudava em escola pública, das melhores e maiores do Brasil.  O acesso era por sorteio no então curso primário e por exame de admissão ao ginásio. A excelência e gratuidade da “Caetano de Campos” faziam dessa admissão uma verdadeira caça ao tesouro com muitas centenas de caçadores. 

Quando presidente do grêmio, autorizado pela direção, criei um cursinho para preparar pretendentes ao ingresso no estabelecimento, com uma única condição: tinha que ser pobre.  Nessa época, pobre era carente de dinheiro, mas chamado de pobre mesmo. Carente, acho, é muito abrangente e quem teve ou tem dor-de- cotovelo bem o sabe.

Um colega dava aulas de Matemática e História e eu de Português e Geografia. Eram duas turmas de 40 alunos cada. Ao final, foi uma grande alegria, pois esses pobres obtiveram um índice de aprovação muito maior que o índice geral do exame. 

Moro há 27 anos num imenso condomínio – 600 mil  metros quadrados, 5 mil moradores – na Barra da Tijuca, Rio.

Uma assembléia, em 1984, elegeria um candidato único para Síndico Geral e teria como conseqüência imediata uma grave cisão entre os condôminos. Nessa assembléia, ao tentar bloquear o fato, circunstâncias inesperadas e não desejadas elegeram-me Subsíndico Administrativo. Dia seguinte, iniciei o mandato de dois anos. Na época eu trabalhava muito como um dos superintendentes da Fundação Roberto Marinho, o que incluía uma intervenção no escritório de São Paulo e conseqüentes viagens.

Cuidava do nosso Clube, inventava e realizava a mais diversa programação para crianças, com atividades em todos os sábados, domingos e feriados, além dos eventos social, artístico e esportivo para adultos. Um  morador e amigo, sabendo de minhas muitas obrigações profissionais e familiares, indagou o que eu pretendia com esse acúmulo de atividades. Política?  

A resposta obrigou-me a uma auto-avaliação. Expliquei que estudei 12 anos num dos melhores colégios do Brasil, que além de excelente era público, ou seja, gratuito. Uns 90% de todos os livros que li, até completar a maioridade, pertenciam às duas bibliotecas da escola e à Biblioteca Municipal, hoje Mário de Andrade. Tudo grátis. Minha formação musical, ainda que modesta, foi iniciada na Discoteca Municipal de São Paulo. Grátis. Minha formação cinematográfica, nada modesta, contava com duas sessões semanais na Cinemateca de São Paulo. Grátis. Minha iniciação e contato com as artes plásticas, além dos livros, foram ampliadas – “ao vivo” – por dois museus de arte, sendo um apenas de arte moderna. Grátis. Quando da inauguração da sede do Teatro de Equipe, em Porto Alegre, essa Cinemateca e outras instituições emprestavam filmes – tudo grátis – e a gente fazia exibições todos os sábados com ingresso grátis, é claro. A iniciação cinematográfica do ator Paulo César Peréio começou aí, com ele carregando o projetor emprestado do Instituto Goethe. Projetor e frete grátis.

Foi fácil dizer ao meu amigo que eu sou um produto no qual a sociedade investiu muito e que me sinto obrigado a devolver a ela um mínimo desse investimento. 

Inté.

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Autor

Mario de Almeida

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