Respeitador de hierarquias, das colegas e dos presságios do horóscopo, o Douglas só visitava seu apartamento no subúrbio quando os astros recomendavam passar mais tempo com a família. Mesmo já tendo passado dos quarenta, o Douglas ainda morava com os pais. Jamais havia sido visto com uma namorada, o que deu origem a certos boatos a respeito de sua sexualidade, logo refreados pela lógica de um de seus poucos amigos no escritório.
– Também nunca foi visto com homem – argumentou Tadeu, vulgo Grafite, apelido que nada tinha a ver com a cor de sua pele, que era branca como leite, mas com o fato de apresentar em reuniões relatórios e projeções financeiras rabiscadas a lápis em folha de rascunho enquanto os demais participantes exibiam laptops de design arrojado ou sacavam palmtops de última geração. Tadeuzinho Grafite, como o chamavam as moças, sempre saía em defesa do Douglas. Fazia sentido, pois era tão esquisito quanto o amigo. Também faziam sentido suas argumentações. Não aquele sentido definitivo, capaz de convencer de fato a platéia, mas sentido o bastante para não fazer sentido algum, o que levava os interlocutores, tontos e sem saber o que dizer, a encerrar o assunto.
Foi assim quando o Douglas começou a levar serviço para casa – “Devíamos lhe agradecer, pois trabalharemos menos” – ou quando trocou a pasta pela mochila – “Um homem tem o direito de dormir onde quiser, impedi-lo seria um atentado contra sua liberdade de ir e vir. Ou só de vir. Mesmo quando não vai”. Como ninguém conseguia contra-argumentar com Tadeuzinho Grafite, o Douglas sempre podia contar com um poderoso aliado.
Um dia o Douglas não apareceu para trabalhar. Em poucos minutos a empresa estava em polvorosa, do primeiro ao último andar. Isso nunca acontecera antes.
– O quê? O Douglas? Não, é impossível.
– Juro. Eu mesmo vi com estes olhos que a terra há de comer.
– Viu o quê, se ele não veio?
– Não o vi, ou vi que ele não veio, dá no mesmo.
Esse era, aliás, o argumento do Tadeu.
– Se ele nunca vai, como pode ter não vindo?
A confusão se espalhou do cafezinho à diretoria. Ninguém trabalhou durante toda a manhã e a situação não mudou muito depois do almoço. Onde estaria o Douglas? A diretoria, mesmo às voltas com o sumiço de alguns documentos importantes, deu prioridade ao caso e se declarou em reunião permanente, os funcionários organizaram forças-tarefa para procurá-lo e até o sindicato foi autorizado a usar o auditório da companhia para promover uma assembléia geral extraordinária. Mas nada adiantou. O Douglas desaparecera sem deixar vestígios.
– Vai ver ele nunca existiu. – propôs Tadeuzinho Grafite.
Antes que alguém reagisse, emendou.
– Pensem bem: se ele nunca chegava e nunca saía, é porque ele, na verdade, não existia. Pois como pode alguém que existe nunca chegar nem partir?
Os colegas coçaram a cabeça por alguns segundos. De fato, não havia explicação.
– Trata-se de alucinação coletiva. – decretou Tadeu, empavonado pelo próprio brilhantismo. E de tanto insistir, todos passaram a acreditar.
Um dia o próprio Tadeu sumiu de repente. Mais ou menos na mesma época, por uma incrível coincidência, desapareceram alguns cheques e documentos confidenciais. Mas, desta vez, não houve pânico. Os acionistas, cansados de tolerar as alucinações dos empregados, demitiram o presidente e contrataram um terapeuta de grupo.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial