“Um país exótico, misterioso, intrigante, mas a anos-luz do que seja a modernidade e prosperidade.” Assim, Exame faz o preâmbulo de como os brasileiros vêem a Índia – em sua matéria publicada de capa no último mês. E apressa-se em apresentar aos empresários oportunidades de negócios, num país que cresce 8,5% ao ano, e com um PIB estimado em 2005 de US$ 3,334 trilhões. Estima-se que as necessidades de infra-estrutura no país sobem a US$ 150 bilhões. Algumas construtoras brasileiras já estão pensando em aproveitar oportunidades nesse filão.
O número de passageiros domésticos cresce, em média, 25%. Oportunidade para a Embraer. Frangos, abertura de mercado para Sadia e Perdigão. Na siderurgia, a demanda de aço vem crescendo rapidamente, e a sugestão da Exame é de se investir em plantas produzindo tanto para o mercado indiano como para a Ásia. Entre outros itens, chega-se finalmente à educação, onde a Índia é famosa por seus cérebros que parecem talhados para softwares.
A necessidade das artes
A Índia dominou o ensino fundamental, mas outro problema se apresenta. “Nós não temos ninguém procurando por artes, todos estão buscando engenharias e administração”, disse Jerry Rao, executivo-chefe da MphsiS, uma das maiores empresas indianas de terceirização. “Estamos nos tornando uma nação de programadores aspirantes. Se não tivermos pessoas suficientes em humanidades, perderemos a próxima geração.” Diz Amartya Sens, prêmio Nobel: “Isso é triste. A arte impulsiona a tecnologia”.
New York Times revela por que tanta ansiedade atual sobre o ensino, por que os cabos de fibra ótica e internet nivelaram o campo do jogo econômico, criando uma plataforma global onde mais trabalhadores em qualquer parte pode conectar-se e participar. O capital agora fluirá mais rápido do que nunca para explorar os talentos produtivos. Que o digam gigantes como a Microsoft e a Intel. Quando todos têm acesso à mesma plataforma de tecnologia, escreveram os consultores John Hagel III e Jonh Seely Brawn, a arte e a criação são a única atividade sustentável.
“Nós precisamos encorajar uma maior incubação de idéias para tornar a inovação uma iniciativa nacional”, disse Azim Premji, presidente da Wipre, uma das principais empresas de tecnologia da Índia. “Nós, como indianos, somos criativos. Dada a nossa rica herança cultural, dispomos, sem dúvida, de grande arte e literatura. Precisamos trazer o mesmo espírito para a economia e os negócios.”
Os antigos Deuses voltam
Principalmente Shiva, o misericordioso, e os demais personagens do panteão indiano voltaram a ser cultuados, agora impulsionados pela tecnologia. “O fenômeno vem se ampliando porque nosso compromisso com a modernidade é muito novo”, afirmou a Le Monde Anan Kumar, professor da Universidade Jawhastal Nehru. “Durante muito tempo, as grandes cidades indianas eram antes profanas, mas agora as pessoas estão à procura de identidade, assumem com mais segurança o que elas são. Entre elas, os deuses milenares.” A audição dos comentários ou de textos religiosos ganhou vida nova com os meios de comunicação modernos – televisão, vídeo e TV.
Em menos de dois anos, surgiram sete canais de televisão religiosos. “Nos próximos cinco anos, esse gênero deverá ganhar importância, uma vez que as jovens gerações se tornarem dependentes da ioga ou da meditação”, afirma Yugantar Sanesa, do canal de TV Maharichi. “Antes, achavam que apenas os idosos assistiam à TV, mas os jovens querem conhecer suas raízes sociais, espirituais e morais.” Segundo brochura publicada por Anan Kunar, um dos líderes do movimento, muitas empresas, como American Express, Crédit Suisse, Citibank, enviam seus empregados para assistirem ao programa “Dirigentes para as Sociedades”. Como gigantes como a Microsoft e a Intel buscam seus técnicos na Índia, ou mesmo lá instalam escritórios, é de acreditar-se, já que no mundo da informação o país é considerado um celeiro de talentos.


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