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Deus salve a América

A galeria de esquisitices da América Latina, repleta de militares com delírios de poder, populistas de direita, ditadores de opereta e demagogos de variados …

A galeria de esquisitices da América Latina, repleta de militares com delírios de poder, populistas de direita, ditadores de opereta e demagogos de variados matizes, apronta-se para receber novos inquilinos. Séculos de experiências indesejáveis deveriam ter levado o combalido pedaço do continente americano, contumaz hospedeiro de espécimes exóticos, a uma saudável evolução. Acabou conduzindo apenas a uma nova praga de laboratório: o populista de esquerda.

Reuniões de Evo Morales, Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva caracterizariam formação de quadrilha em paragens mais civilizadas. Nos tolerantes trópicos são saudadas como sinal de uma nova era. Eleitos por populações sempre dispostas a acreditar na fidelidade de um homem às suas origens, mas invariavelmente seduzidos por sonhos de poder e glória, tais exemplares do homus arcaicus acabam por derrapar na incapacidade de se colocar à altura do próprio discurso.

Pouco afeitos a contrariedades, esses simulacros de seus heróis julgam-se acima de críticas. Qualquer objeção a seus métodos é logo classificada pelas tropas do atraso como tentativa das elites de impedir o acesso do povo ao poder. O povo não tem acesso a contas de marcosvalérios, nem põe a mão no petróleo venezuelano. Tampouco os miseráveis bolivianos conhecerão tempos de opulência sob um governo que vai na contramão da História.

Como não consegue acabar com a fome no Brasil – tarefa ingrata, mas a promessa é dele –, Lula resolveu direcionar suas inquietações noturnas à fome na Bolívia. Como sabe que jamais será Simon Bolívar, Chávez cria factóides para ocupar o trono de líder que Lula julgava lhe pertencer. Evo Morales roubou a cena. Suas jaquetas e seus cabelos impressionam mais que os ternos bem cortados de Lula, ou os uniformes de candidato a mito de Chávez. Ao menos ele tenta parecer um homem do povo, e é difícil crer que tenha brindado à vitória nas eleições com uma garrafa de Romanée-Conti.

Enquanto a América Latina gira no sentido anti-horário, o Brasil é arrastado para esta roda insensata por um presidente que há muito esqueceu de governar, se é que algum dia o fez sem ter por perto José Dirceu, aquele que estava quase convencido de sua própria inocência. Mas, como ele não sabe de nada, será perdoado, e quem sabe reeleito. Está na categoria das crianças e dos loucos. É inimputável.

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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