Me impressiona a radiante felicidade das pessoas que aparecem nestas revistas de variedades(Caras, Gente, etc). Estão sempre felizes, parecem exultantes. Será que tem alguma coisa de errado comigo? Não consigo transparecer tanta felicidade assim!
Isto acontece porque hoje se criou uma certa monocultura da felicidade. Não se pode mais andar deprimido, chateado. Somos cobrados, é preciso ser feliz, feliz. Claro que todos buscamos a felicidade. Ninguém quer ser infeliz. Mas ser obrigado a aparentar felicidade o tempo todo se tornou uma espécie de ditadura.
Como todo mundo, tenho altos e baixos, dias bons e ruins. Mas ninguém quer saber. Tem que estar feliz! Mas e por que mesmo? De onde saiu esta ditadura da felicidade?
Na minha avaliação, de uma certa imaturidade. A vida “adulta” é séria, muitas vezes dura. Levar a vida sendo permanentemente feliz é uma forma de negar os problemas ou, se não negar os problemas, ao menos negar que eles nos afetam. Ou seja, impossível.
Isto também tem a ver com a ditadura da beleza. Todos precisamos ser belos, esbeltos, turbinados, incríveis. Mas, aqui para nós: na vida real, quantos somos assim? Abdominal de tanquinho para os homens. Coxas e bundas maravilhosas para as mulheres. Quantas pessoas das relações de vocês têm dotes físicos tão invejáveis assim?
Ser belo permanentemente remete à questão da juventude, outra ditadura implantada recentemente. Não adianta: a juventude é bela mesmo. Assim como um bebê é uma coisa encantadora. E uma criança, pela sua ingenuidade frente ao mundo também. Ocorre que a fila anda, o tempo passa e as coisas mudam. Ninguém consegue ficar eternamente jovem. Vi na TV um casal de americanos que faz coisas inimagináveis para manter uma aparência de 15 anos mais jovens. Conseguem, não resta dúvida. A questão é: vale a pena? A quem eles tentam enganar? Cronos? Me parece que as pessoas ficam buscando algo inatingível porque impossível.
Exatamente como ocorre com a questão da felicidade. Vejo algumas mulheres que posam para estas revistas sorrindo tanto que parecem que vão ter cãibras. Que vai dar para ver, pelo sorriso, o canal auditivo. Vamos pegar leve, gente! Vamos crescer um pouquinho e admitir nossas falhas, nossas rugas, a barriguinha ou a celulite. Vamos ver o mundo de forma mais madura e sensata. Vamos enxergar as coisas como elas são. Se fizermos isto, quem sabe conseguimos um dia melhorar a nossa realidade.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial