Políticos e governantes dispostos a interpretar a vitória do “não” no referendo como o mero apoio dos brasileiros às armas incorre em erro que pode ser fatal. Trata-se de um estridente não à ausência de uma competente política de segurança pública, um retumbante não a quem deveria prover a sociedade desta segurança, não o faz, acusa os cidadãos de serem os culpados pela violência e, embora eleito para resolver tais questões, tenta jogar a decisão nas costas de quem lhe paga o salário. Dizer que o “não” ganhou porque brasileiro gosta de arma é de um cinismo e uma burrice sem tamanho.
A propósito, há mais de dois anos falei sobre o tema neste espaço. Na incapacidade ou falta de vontade de resolver os trágicos problemas sociais do país, autoridades de variados escalões passaram a adotar um discurso cômodo: a culpa pela violência era dos cidadãos que tinham armas em casa na ilusão de se proteger da bandidagem que controla o país, os responsáveis pela farra dos traficantes no Rio eram os usuários de drogas e os culpados pela prostituição de menores eram os clientes. Reproduzo a seguir o trecho sobre as armas, de 8 de outubro de 2003:
“A campanha pelo desarmamento da população civil foi encampada pela Rede Globo, o que significa que todos os políticos de bom senso deste país, que não são muitos na maior parte do tempo, mas que são quase todos quando se trata de garantir presença no Jornal Nacional, haverão de votar a favor da proibição da venda e do porte de armas. Nunca tive uma arma, já vi gente de, digamos, boa índole, se dar mal por andar com arma. Não há dúvida de que numa refrega com bandidos, o cidadão comum sempre levará a pior, não foi treinado para isso, ao contrário do adversário. Também não tenho dúvidas de que arma, sendo feita para matar, jamais será boa coisa, melhor seria se o mundo se livrasse delas de uma vez por todas. O problema é: quem vai explicar isto aos bandidos? As armas de fogo comuns, daquelas que algum tio da gente tem em casa, um 22, mesmo um 38 (ainda existe a Beretta?), são utilizadas em causas menores, embora mortais, mas os criminosos de alto nível, os promotores de carnificinas, há muito as aposentaram. O negócio agora é grosso calibre, fuzis, material de forças armadas de primeiro mundo. Como não se consegue combater, muito menos desarmar o banditismo globalizado, que se desarme a população. A culpa da criminalidade neste país é do cidadão que, apavorado com o nível atingido pela violência urbana, comprou uma arma na ilusão de ficar protegido. Não adianta nada, se sabe, possivelmente será usada contra ele, mas talvez exerça razoável efeito psicológico. Enfim, a culpa é de nossos tios, e não do Fernandinho Beira-Mar.”
No SUS, nem pensar
Em conversa com um amigo médico que se queixava da dureza do ofício e da baixa recompensa, não resisti: “Não existe médico pobre. A prova é que nunca se encontra um na fila do SUS”.

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