Jornalistas estão de tal forma acostumados a buscar fora das redações o inédito, o inusitado, o exclusivo e o grandioso, que tendem a não registrar com a devida ênfase episódios ocorridos sob suas barbas. O editorial da edição de ontem (segunda, 17 de novembro) de Zero Hora representa um avanço considerável nas relações veículo-leitor e um passo importante a caminho do primeiro mundo do jornalismo. Embora a proximidade com o fato possa embotar a visão, “Por um não responsável” é um divisor de águas na história do jornalismo gaúcho. É raro no Brasil, mais ainda no Rio Grande, e mais ainda na RBS, um veículo de ponta assumir uma posição em assunto controverso, de natureza político-jurídica e capaz de alimentar discussões acaloradas.
A decisão é conveniente. Pesquisas informam que o “não” ao desarmamento deve vencer com facilidade no Rio Grande do Sul. Alinhar-se com a maioria nunca fez mal a ninguém. Mas, neste caso, as motivações são o que menos importam. A RBS assumiu uma posição clara, isto é o que importa. Embora deva ser perseguida com obstinação, a imparcialidade absoluta é quimérica. Na maior parte do tempo os veículos esforçam-se para disfarçar suas opções, tanto quanto as patrulhas das redações empenham-se em contrabandear para os textos suas inclinações partidárias.
Os politicamente corretos mostraram-se injuriados quando Veja deu uma capa favorável ao “não”, mas não revelaram igual indignação com a escancarada postura da Rede Globo pelo “sim”. Gostamos da suposta imparcialidade só quando nos beneficia. Disfarces que reforçam nossas teses são bem-vindos.
Assumir posições é sempre positivo. A imprensa americana, competente, profissional e evoluída – salvo exceções, mas tem coisa pior por aqui –, é pouco afeita a manobras diversionistas. O eleitor americano costuma saber qual veículo é a favor de Bush, qual é contra a invasão do Iraque, e por aí vai. O Brasil engatinha nesta área. Atitudes como a da RBS devem ser saudadas com entusiasmo. O editorial a favor do “não” poderia ser em benefício do “sim” e isto não mudaria o impacto da decisão. Quem sabe um dia Zero Hora informe aos leitores que tem candidato à presidência, ou que prefere o ideário de determinado partido. Posicionar-se em relação ao referendo é um ótimo começo.

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