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Batom na cueca

Foi o Evaldo Gonçalves quem me apresentou à frase “tudo tem uma explicação, menos batom na cueca”. Concordei de pronto, inocente que era. Anos …

Foi o Evaldo Gonçalves quem me apresentou à frase “tudo tem uma explicação, menos batom na cueca”. Concordei de pronto, inocente que era. Anos mais tarde descobri que até isso poderia ser explicado. Certa vez eu acabara de chegar de um  jogo de tênis, entrei rápido em casa e fui direto para o chuveiro, pois tinha de trabalhar em seguida. Vestia-me no quarto quando minha mulher entrou e percebeu uma mancha de batom em minha cueca. Como eu havia chegado meio apressado, aquela evidência parecia comprovar a suspeita de que meu suor não havia sido adquirido na quadra. Qualquer explicação em um momento desses, sabe-se, serve para coisa alguma. Além do mais, eu não tinha uma explicação.

Um breve momento de racionalidade a faria ver que aquela não era a cueca que eu usava antes, e sim a que eu acabara de colocar. Mas, antes de parar para pensar, ela saiu batendo a porta e foi para a sala de jantar, na qual a mesa estava sendo posta pela mãe dela. O batom em minha cueca já não era um segredo de casal. Sogras costumam incendiar ainda mais tais situações. Desta vez, foi a salvação. Ela morava a poucas quadras de distância, o que costuma ser um péssimo negócio. Há até uma piada segundo a qual a melhor distância para uma sogra morar é algo em torno de dez quilômetros: longe demais para vir a toda hora, perto demais para trazer a mala.

Voltando, como nossa máquina de lavar roupas estava no conserto, a sogra levara uma bolsa com algumas peças nossas para lavar na casa dela. Ao ouvir a história, concluiu o que acontecera: seguindo um hábito antigo de encostar uma roupa no rosto para ver se está seca, ela acabou deixando a comprometedora marca em minha cueca. A cor combinava, e fui salvo na última hora. Ainda bem que não passou pela cabeça de minha mulher que eu estava tendo um caso com a mãe dela, atitude nada incomum em uma mulher com ciúmes.

Naquele dia descobri que o Evaldo estava errado.
Contei isso a ele horas depois.

Então, que diabos, por que dólares na cueca não teriam explicação?

Ou malas cheias de dinheiro do dízimo?

Ou envelopes recheados entregues a parlamentares?

Ou a propina nos Correios?

Ou o suborno do Waldomiro Diniz?

Ou o surgimento do nome do Zé Dirceu em tudo quanto é denúncia?

Ou a ignorância do Genoíno sobre o que acontecia debaixo de suas respeitáveis barbas?

Ou a inocência do presidente Lula?

O Evaldo, querido amigo morto no final do ano passado, ficaria perplexo.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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