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Os menos vendidos

Sempre que se entra em um site de uma livraria ou editora, ou mesmo dentro da própria livraria, há a seção Mais Vendidos. Ela …

Sempre que se entra em um site de uma livraria ou editora, ou mesmo dentro da própria livraria, há a seção Mais Vendidos. Ela é usada como um sinônimo de que o que há de melhor está ali. Sei não, hein? Quem disse que o que a maioria gosta é o melhor? Há aquele velho exemplo das moscas, que se elas comem o que comem e são milhões, não podem estar erradas. E que a nossa dieta alimentar deveria seguir o modelo delas. Como se vê, maioria nem sempre é sinônimo de melhor.

Como todo mundo, quando entro numa livraria ou num site, dou uma olhada nos Mais Vendidos. É natural já que nós, humanos, temos a tendência de querer saber, a curiosidade de querer conhecer e entender o que os outros estão falando e pensando. Além disto, ler um livro dos Mais Vendidos dá um sentimento de pertencer à Tribo dos Informados. E, neste mundo de tantas incertezas, tão globalizado, as pessoas querem mais é pertencer, ter um referencial. (Esta busca pelo pertencer, pela identidade, gera um aumento na importância e procura por marcas. Mas isto é tema para uma outra coluna).

Mas gosto também – e mais – de ficar revirando os Menos Vendidos. Aqueles que acabam ficando mais escondidos, no fundo da prateleira, só com a lombada aparecendo. Muitas vezes, tratam de temas diferentes e “desinteressantes” para a maioria. Mas este diferente pode ser muito interessante. Tanto pelo que o livro trata quanto pelo fato de nos oferecer uma oportunidade de enxergar as coisas por outro ângulo, receber informações que não fazem parte da massa diária a que somos submetidos, reflexões.

Pensar diferente da maioria é uma aventura. Pensar, criar, na verdade é uma forma de rebeldia. Se for diferente, então, nem se fala. Acho que a lista dos Menos Vendidos pode ser equivalente ao colorido no meio do preto e branco. Em tempos de globalização, o pensamento humano parece ter perdido sua vocação natural, que é questionar, refletir. A globalização está invadindo o pensamento. Estamos tendendo a uma perigosa homogeneidade. Em algumas áreas, como a dos direitos humanos, da democracia, a homogeneidade está sendo benéfica. Servem como referência países com sólidas democracias, e isto é bom. Porém, na ciência, na produção intelectual de modo geral, esta tendência à homogeneidade é altamente prejudicial. O que nos torna tão fascinantes como espécie é sermos diferentes.

Assim, defendo a criação da lista dos Livros Menos Vendidos, dos CDs Menos Vendidos, dos Lugares Menos Freqüentados, dos Palestrantes Menos Ouvidos, dos Artistas Não Consagrados. Tenho certeza que se lermos estes livros, formos a estes lugares, conhecermos estes artistas, teremos uma oxigenação cerebral, tão rara hoje em dia. Mas fundamental para nossa inteligência e nossa evolução.

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Autor

Flavio Paiva

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