O texto a seguir foi produzido há cerca de um ano e publicado no Jornal do Brasil. Como o JB é pouco lido por aqui, e um papo com ou sobre o Denis Rosenfield sempre rende, creio que vale a reprodução neste espaço.
O filósofo Denis Rosenfield tem se notabilizado pela abordagem clara e direta de temas em geral conduzidos à ótica do hermetismo e do rebuscamento. Suas críticas ao Partido dos Trabalhadores, do qual foi colaborador até pouco tempo atrás, o tornaram o filósofo da vez, requisitado à exaustão pela mídia, sempre voraz na construção e na destruição de ícones. Um exame mais profundo de sua obra revela o quanto Rosenfield vai além do eventual oportunismo intelectual e mergulha com determinação e consistência acadêmica nas vicissitudes humanas desta virada de século.
Retratos do mal, seu mais recente livro, editado pela Jorge Zahar, é uma síntese de seu pensamento. Complexa, mas acessível, hegeliana por natureza, a obra cumpre o que promete ao traçar um retrato desta faceta humana cuja compreensão é tão necessária à tentativa de conferir sentido à existência e, sobretudo, à existência em sociedade. Longe de incorrermos no maniqueísmo, ultrapassado pela filosofia e pela história, temos a necessidade urgente de refletir sobre o papel do mal e suas implicações em nosso tempo.
Acabamos de sair de um século decididamente totalitário, o que nos confere dupla vantagem. Estamos distanciados o bastante para apreciá-lo com razoável isenção e próximos o suficiente para não perdermos a perspectiva. Temos, primeiro, de abrir mão de preconceitos, de pré-conceitos em sua forma primal. O mal não é mero contraponto ao bem, tampouco, ou muito menos, um sentimento, uma atitude a ele subalterno. Caso pretendamos de fato tentar decifrá-lo, antes teremos de nos despojar de definições morais ou religiosas predispostas a distorcer e, portanto, a eliminar a visão objetiva, a única verdadeiramente produtiva.
Rosenfield utiliza o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, como ponto de partida de suas reflexões. Mais do que provocar a indignação do mundo civilizado em geral e o regozijo de uns poucos, o dia em que o mundo soube que teria de rever seus conceitos de civilização, de Estado-Nação e de Estado protetor e promotor do bem-estar social, talvez deva ser visto como ponto de inflexão no pensamento filosófico ocidental.
O autor já ingressara no tema em O terror, edição da revista de filosofia política da Jorge Zahar, da qual é o coordenador. As Torres Gêmeas não existem mais. Nova York, a capital do mundo, ao menos do mundo cosmopolita e não sectário, talvez tenha, doravante, de ser encarada sob um viés diferente. O que importa, na visão de Denis, é juntar os destroços e utilizá-los na imensa tarefa de reconstrução não das torres, mas do pensamento filosófico.
Os episódios totalitários do século 20 exigem tal reconstrução. Os milhões de judeus, ciganos e outras minorias étnicas chacinados na Alemanha nazista de Adolf Hitler no alvorecer e ao longo da Segunda Guerra Mundial ou os outros milhões trucidados por razões ideológicas – e também étnicas – na União Soviética de Josef Stálin são fantasmas a atormentar o pensamento ocidental. Traçar distinções entre ambas as matanças cabe aos ideólogos, não aos filósofos. A estes concerne examinar as ações humanas à luz da razão. Revisitar fenômenos da dominação violenta de um povo sobre o outro, ou de um Estado sobre o povo, ou ainda de grupos fanáticos sobre alvos etéreos põe em xeque o sentido mesmo do ser.
Doucter d’état pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), Denis Rosenfield é professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do CNPq. De acordo com o autor, ”num certo sentido, pode-se dizer que o (ponto) central não consiste em reconhecer que todo homem tem certos instintos básicos – até aí pouco evoluímos no conhecimento da natureza humana, pois nos daria um certo denominador comum que nos aproximaria de outras espécies animais –, mas no como esses instintos básicos são trabalhados, elaborados, pelas diferentes instâncias psíquicas, sociais e culturais”. Equivale a dizer que qualquer interpretação da natureza humana fracassará se não levar em conta o tempo, o meio e a cultura na qual ela se insere como objeto de estudo.
Rever o próprio significado de mal é exigência de uma compreensão adequada. Usa-se o termo em circunstâncias tão distintas quanto na descrição de doenças – como o mal de Alzheimer – ou em representações infantis, nas quais invariavelmente ao caminho do ”bem” contrapõe-se o do ”mal”, em ambos os caso numa invocação pouco precisa. Antes de tentar conter o mal é preciso identificá-lo. Retratos do mal nos fornece ferramentas essenciais a esta jornada na qual as armadilhas diversionistas estão por toda parte.
Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances “Silêncio no Bordel de Tia Chininha”, “Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos” e da ficção juvenil “Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos”.

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