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Evaldo

Talvez fosse melhor eu me calar, depois do belo e emocionante artigo do Antônio Oliveira, ou talvez fosse melhor eu me calar de qualquer …

Talvez fosse melhor eu me calar, depois do belo e emocionante artigo do Antônio Oliveira, ou talvez fosse melhor eu me calar de qualquer forma. Nunca há muito a dizer, ao menos nunca o bastante.

Eu tinha 23 anos recém-feitos, estava formado havia seis meses, pesava 59 quilos, exibia farta cabeleira encaracolada, e mesmo assim era subchefe da revisão de Zero Hora, quando Emanuel Mattos resolveu, de uma pilha de opções, escolher o meu minguado currículo e me abrir as portas da redação. Emanuel era o chefe maior, Mauro Toralles o editor de matérias especiais, mas, embora eu despachasse com os dois, foi ao Evaldo Gonçalves que entregaram meu destino imediato. Recebeu-me com gentileza e uma frase: “Cuidado, porque o papel aceita tudo”. Eu jamais esqueci tal ensinamento, tão singelo quanto fundamental.

Minha inexperiência ou meus cabelos jamais motivaram nele qualquer preconceito. Dotado de paciência invulgar, proporcionou-me – como faria com tantos repórteres impúberes ao longo da carreira – ambiente favorável para o crescimento profissional. Tanto que em pouco tempo tive o privilégio de me tornar seu subeditor de esportes amadores, ou “outros esportes”, como se passou a chamar depois, diante da ausência de amadorismo, para o bem e para o mal, e em reconhecimento ao papel principal do futebol dentro da editoria de esportes.

Tornamo-nos amigos. Evaldo foi o padrinho de minha primeira filha, Elise, nascida em 1984, quando nem completáramos um ano de convívio. Atualizávamos o papo no jantar ou durante as dezenas de caronas que ele me deu, mesmo tendo de se desviar quilômetros de seu caminho original.

Alguns colegas costumavam socorrer-se de seus empréstimos. Não foi o meu caso, mas poderia ter sido. Inquirido sobre a permanente liquidez, dava a receita no estilo enxuto e pragmático: “Acordo cedo”. E cedo se aposentou do banco no qual trabalhava pela manhã, indo à tarde para ZH sem hora para sair. O mesmo estilo direto era empregado nas pequenas lições cotidianas, como ao corrigir uma sugestão de título: “Não se diz que alguém foi o grande vencedor de uma prova, porque não existem pequenos vencedores, todos são grandes”.

A discrição acerca da vida particular valeu-lhe o apelido de Mineirinho, em alusão ao personagem “come-quieto”, em voga na época. Conduziu a vida privada de maneira exemplar, sem interferências externas. Profissionalmente, nunca esqueceu a cortesia e o respeito. Em ambos os casos, jamais foi visto levantando a voz.

Trabalharíamos juntos em outras duas ocasiões: na implantação do caderno ZH Leste-Oeste e mais uma vez no esporte. Nos últimos anos, nos vimos pouco, como pouco convivemos com boa parte das pessoas de que gostamos até ser tarde demais.

Ao morrer, na semana passada, Evaldo José da Silva Gonçalves deixou órfãos incontáveis repórteres, entre os quais eu, um de seus eternos e gratos aprendizes.

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Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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