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As provas

Primeiro, vamos combinar o seguinte: somos democratas e, como tal, acreditamos nas liberdades individuais, no governo do povo e para o povo, e na …

Primeiro, vamos combinar o seguinte: somos democratas e, como tal, acreditamos nas liberdades individuais, no governo do povo e para o povo, e na normalidade institucional, amém. Ah! Defendemos também o cumprimento das leis e a inocência de qualquer cidadão até que se prove o contrário. A mídia é a favor de tudo isso, exceto quando ditadores a obrigam a dizer outra coisa, ou, no mínimo, a calar a boca. Afora isso, tem a ética profissional, o respeito ao leitor e o medo dos processos.

Por isso a mídia não acusa ninguém sem provas, tampouco destrói carreiras ou instituições se não tiver absoluta certeza do que diz, certo? Quem dera. Muito já se falou a respeito do caso da Escola Base, cujos donos foram acusados de abuso sexual de crianças. Perderam tudo, depois tiveram a inocência provada, mas esta informação, como sempre, ganhou destaque infinitamente menor que a denúncia. Suas vidas foram destruídas, mas ficou por isso mesmo. Ou do ex-ministro Alceni Guerra, que teria fraudado uma licitação para a compra de bicicletas destinadas a agentes de saúde. Fizeram piadas de todo tipo – não recordo, mas alguém deve ter tido o mau gosto de tecer analogia com o filme Ladrões de Bicicletas, aquela antológica poesia operária em tela grande –. Acabaram com a carreira política dele, que acabou inocentado, mas o dano nunca foi devidamente reparado.

Como somos legalistas, temos de admitir que nada jamais foi provado contra o ex-presidente Fernando Collor, assim como a prisão do assecla Paulo César Farias no exterior foi executada de forma ilegal. Não acredito na inocência deles, é óbvio, apenas analiso do ponto de vista técnico. Alguém aí atrás do teclado deve estar dizendo algo tipo “pô, o cara ainda tem dúvidas, se todo mundo sabia que eles eram ladrões”? O problema é o “todo mundo sabia”, só aceito em tribunais quando é conveniente para a mídia. Não basta ser conveniente para o povo, tem de ser conveniente para a mídia. Como é conveniente para a mídia incensar Brasil afora caciques políticos execrados pela mesma razão e na mesma época e hoje instalados em dignos gabinetes.

A falta de provas já soltou muitos bandidos. É clássica a queixa do policial que passa meses investigando e arriscando a vida até poder dar voz de prisão a um notório delinqüente e o vê ser liberado horas depois por alegada falta de provas. Tem razão o policial em se indignar, mas lei é lei. Do contrário, cidadãos decentes ficariam à mercê de vizinhos raivosos ou ex-mulheres ressentidas. Jornalistas, em tese, devem entender isso. E na verdade entendem, e até exageram, quando se trata de livrar velhos parceiros de luta. Para a mídia, todos são iguais diante da lei, mas alguns são mais iguais. A grande calhordice é não precisar de provas para destruir desafetos e invocá-las para assegurar a impunidade de companheiros. Como a indústria de processos é uma realidade, sonega-se a informação e dorme-se com o emprego tranqüilo.

DITO PELO NÃO DITO

“O cara é totalmente mais ou menos.”

Eduardo Bueno

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*Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É Diretor de Redação da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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