O Brasil vive um ano de cada vez. Ou deixa de viver um ano de cada vez. As temporadas perdidas na história recente do país são tantas que juntas somariam o tempo necessário para torná-lo o que, juramos nós brasileiros, com razoável coro internacional, ele tem condições de se tornar. Desde Juscelino Kubitschek, há mais de quatro décadas, temos encontrado na vida política do país
justificativas para a falta de ânimo e ambição, quem sabe competência, para ingressar no Primeiro Mundo.
Os anos de ditadura militar foram perdidos? Economicamente, sim e não. Tivemos inegável desenvolvimento em infra-estrutura, mas até hoje pagamos a conta de um crescimento maquiado para esconder o monstruoso endividamento externo e a trágica depauperação de milhões de cidadãos, modernamente classificados como excluídos. Politicamente, retrocedemos decênios.
José Sarney, o oligarca maranhense hoje alçado à condição de petista honorário e honorável, atrasou-nos ainda mais com a inflação alucinada, os pacotes econômicos delirantes e os conchavos de toda ordem para se manter pelo maior tempo possível no cargo para o qual não fora eleito. Fernando Collor iludiu a maioria do povo, elegeu-se com todas as honras e sofreu impeachment com todas as desonras, saindo com o rabo entre as pernas e levando junto um pouco mais da esperança brasileira.
A despeito das maluquices, Itamar Franco colocou Fernando Henrique Cardoso no cargo e lançou o Plano Real, que de fato estabilizou a moeda e acabou com espetáculo non sense da inflação.
Ideologias à parte, tanto FH com seus oito anos de governo já cumpridos, quanto Luiz Inácio Lula da Silva, que já governou um e tem condições de chegar também aos oito, não podem ser qualificados de malucos, tampouco de desonestos, e assumiram como vencedores de um jogo da mais alta democracia, ao menos sob o ponto de vista institucional. Lula tem tudo para fazer o Brasil avançar, como FH teve. Não tanto quanto desejamos, talvez, mas mais do que temos conseguido, desde que setores decisivos da cena nacional, como o Congresso ou o empresariado, parem de encontrar desculpas para sua morosidade, falta de iniciativa, apequenamento involuntário ou medo de tomar decisões.
Em determinado ano, nada se faz porque é o último de um governo e teme-se o resultado das eleições. Em outro, é o primeiro de um governo, e tudo é muito incerto. No seguinte, as eleições municipais esvaziam o Congresso, no outro há uma crise internacional, e então já é o último ano de mandato do presidente, há as incertezas das eleições, e assim ad infinitum. Governo algum chegará onde queremos se não pusermos fim à choradeira ancestral. Temos de mudar de atitude porque, como diz a propaganda do cartão de crédito, a vida é agora.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É editor da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

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