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Pobre, mas limpinha!

Editores de retrospectivas terão farto material para a seção de frases neste final de ano. Até agora a principal candidata a figurar no topo …

Editores de retrospectivas terão farto material para a seção de frases neste final de ano. Até agora a principal candidata a figurar no topo da página, com direito a foto e corpo maior, é a do presidente Lula na Namíbia. Só faltou dizer “é pobre, mas é limpinha”. O homem nascido na miséria do Nordeste, que deu duro e chegou ao cargo mais alto da República – por seus inegáveis méritos – há tempos vem emitindo sinais de fácil adaptação às melhores mesas de restaurantes caros, a gravatas italiana e a vinhos de milhares de dólares. Que diabos, não se pode culpar um homem por gostar dos confortos desta vida. Se isto o aburguesou, como disse Leonel Brizola, nosso político mais, digamos, cult, é problema é dele e de quem lhe paga o vinho e depois aceita um cargo que jura não ser de ministro. Se bem que isso é problema nosso, sim. E se como presidente da República protagoniza burguesas derrapadas verbais, o problema sem dúvida é nosso.

Há cerca de dois anos, antes, portanto, de cruzar o mundo em jatos oficiais, Lula cumpria em avião de carreira o trajeto São Paulo-Porto Alegre acompanhado de José Dirceu, hoje ministro da Casa Civil, dos Transgênicos, da Justiça e Outros Quetais. Sentaram-se na fileira atrás da minha, e foi impossível não ouvir o diálogo travado a boca semipequena. Em meio a generalidades, o então futuro presidente do Brasil comentou o quanto era importante observar a receita e o ponto certos do Faisão à Provençal. “Todo mundo acha que sabe fazer, mas um verdadeiro Faisão à Provençal não é tão fácil de se conseguir”. Depois de discorrer sobre os meandros do requintado prato e comentar o quanto era árdua uma campanha à presidência – “a gente tem de comer cada coisa por aí” –, Lula revelou-se indignado com pessoas que traçam um prato de macarrão com garfo e faca – “passei mal, Zé, quase tive de sair da mesa”.

O poder seduz, seja o inquilino do palácio um nobre ou um plebeu. Seduz e corrompe. Corromper-se não significa necessariamente aceitar suborno ou fraudar decisões de interesse público. Corromper-se se traduz também em sucumbir às delícias do cargo com excessiva empolgação, por exemplo. Lula é homem bem formado eticamente, e por certo tomará cuidado para não dar mais valor às gravatas do que aos anseios das ruas. Mas tem de precaver-se com as palavras e atitudes. As suas e as de sua equipe. O presidente já chamou os antecessores de covardes, Zé Dirceu mandou FH cuidar dos netos, Benedita hospedou-se no Alvear, Berzoini caçou direitos de nonagenários e só se desculpou tardiamente e sob pressão, e por fim esta da pobre, mas limpinha, e tudo em curtíssimo espaço de tempo. O poder embriaga, mas para tudo há uma dose exata. Ou suspenda-se o chope na mesa 1.

*Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É editor da revista Forbes, integra a equipe da ConsulteCom e escreve semanalmente neste site.

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Eliziario Goulart Rocha

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