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Conheci Andrea Carta por meio de Wagner Carelli. Meu editor de livros recebeu convite para editar e produzir uma revista de caráter publicitário com …

Conheci Andrea Carta por meio de Wagner Carelli. Meu editor de livros recebeu convite para editar e produzir uma revista de caráter publicitário com o carimbo da Vogue, e me levou junto. Tratava-se de uma publicação destinada a divulgar um

empreendimento imobiliário chamado Terravista que começava a tomar forma em Trancoso, na Bahia. Como Wagner estava às voltas com o lançamento de sua editora própria, a W11, pela qual publiquei meus dois livros mais recentes, e ainda cuidava de uma custom publish para os celulares Oi, acabei sendo eu o editor executivo e interlocutor direto do Andrea. Convivemos por alguns meses, tempo curto demais para se conhecer verdadeiramente alguém, mas longo o bastante para se identificar alguns traços da personalidade. Ao saber que havia morrido ao cair do quinto andar de um prédio nos Jardins, imaginei várias possibilidades, menos o suicídio. A hipótese de tirar a própria vida não combinava com aquele homem carismático, simpático até, mas de personalidade tempestuosa, sotaque de chefão siciliano e que parecia crer que o mundo girava ao seu redor.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão, diretor de Redação da Vogue e considerado um segundo pai de Andrea, o definiu com precisão: “Ele era dado a explosões e exigente, mas de um jeito especial. Quando ele brigava, não era com você, era com uma entidade abstrata. Com uma idéia, não com a pessoa”. Acho que era isso mesmo, embora nem sempre fosse fácil aceitar esta parte de “a idéia, não a pessoa”. Andrea era exigente, o que certamente era bem-vindo numa publicação que prima pela qualidade. Se algo não estava bom, que se refizesse tudo, não importavam os custos. Recordo de uma ocasião em que ele acabara de receber a prova de uma Casa Vogue cuja capa estampava uma foto produzida com o arquiteto Sig Bergamin e a top-model Fernanda Tavares. Por mais que a Camila Hori, editora de arte, e eu, a despeito de breves observações, lhe afirmássemos que estava tudo bem do ponto de vista técnico, ele voltava a nos encarar como se nos concedesse uma segunda chance de nos redimirmos e admitir que sua inquietações não eram de todo infundadas.

Andrea era, também, dado a rompantes como mandar a zelosa Bernadete, secretária e braço direito, ligar seis, oito, dez vezes para o celular de alguém e deixar o mesmo recado, só para marcar presença, como se isso fosse capaz de moldar a realidade à sua feição. Ou de tirar o interlocutor do sério em uma ligação fora de hora, mais uma vez para deixar claro com quem estava falando. Como disse, convivi pouco, e o que guardarei para sempre é a gratidão e o orgulho de ter trabalhado para a Vogue, uma referência do “tudo de bom” editorial deste país. Lembrarei ainda do alívio de poder fumar durante as reuniões na classuda sede da Vogue na Avenida Brasil, em almoços com o elegante Michael-Rumpf Gail, dono do Terravista, ou mesmo no belo carro de Andrea, com o oxigênio básico garantido pelo teto solar. Quase trabalhava para ele agora, numa segunda edição da Terravista. Chegaram a me ligar, mas, estando eu na província, não seria operacional.

Estranhei o “segredo de justiça” decretado para o caso, mas, quem sou eu para discutir isso. Estranhei, apenas, como um espectador desprotegido das lidas jurídicas. Atribui sua morte, até prova em contrário, a um gesto cuja origem está na solidão. Andrea Carta tinha amigos e admiradores de sobra para lhe render homenagens – embora não para lhe aliviar o fardo da solidão. Mas quem poderia, sendo a solidão algo tão pessoal?

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. Escreve semanalmente neste site.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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