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A distância estimula o exagero

Mamãe por certo se preocupava ao assistir ao noticiário sobre São Paulo na TV. Seqüestros a todo instante, congestionamentos gigantescos, ar irrespirável. Ela devia …

Mamãe por certo se preocupava ao assistir ao noticiário sobre São Paulo na TV. Seqüestros a todo instante, congestionamentos gigantescos, ar irrespirável. Ela devia imaginar que seu filho corria risco de vida 24 horas por dia. Os problemas da capital paulista são bem conhecidos, seria estupidez negá-los, mas são, em primeiro lugar, fruto de seu gigantismo. Ainda que o Brasil fosse bem diferente do que é, a cidade teria problemas. Em relação ao trânsito e, por conseqüência, à poluição, seria difícil escapar de transtornos semelhantes aos vividos por Los Angeles ou Cidade do México. Pelas ruas da maior cidade do Brasil circulam mais de cinco milhões de veículos. É mais de três vezes a população de Porto Alegre. Já a violência entra na conta do país. De todo modo, boa parte da mídia elegeu Sampa bode expiatório durante certo tempo, num intervalo da pegação de pé do Rio. Parecia que toda a metrópole virara zona conflagrada. Vivendo seu dia-a-dia, não era bem assim. Como no Rio, cujo caso é de fato mais grave, a vida continua.

A distância torna a ampliação dos fatos uma tentação ainda maior. É o caso da pane de energia que deixou parte dos Estados Unidos e do Canadá às escuras. Tendo atingido Nova York, o sonho da maioria, somado ao trauma do 11 de setembro, a cobertura ganhou glamur e levou editores a

carregarem nas tintas. Parecia que a América do Norte mergulhara no caos. Ao contrário, americanos e canadenses deram mostras de civilidade ao conviver pacífica e honestamente com a escuridão. É fácil exagerar quando o fato ocorre à distância. É igualmente tranqüilo atacar celebridades que não processarão o veículo pelo simples fato de que ignoram sua existência, mas sobre isto falo em outra ocasião.

Alberto Dines abordou exemplarmente os excessos da cobertura brasileira sobre o blecaute americano em artigo publicado no site www.observatoriodaimprensa.com.br “Talvez seja esta uma indicação da nada sutil diferença entre a visão da imprensa que cobre um evento à distância, e por controle remoto, e aquela que participa da cobertura no local dos acontecimentos. Para um editor internacional, as imagens de milhões de pessoas nas ruas podem parecer um sinal de anarquia. Mas para quem estava presente, a realidade é que o passo da multidão progredia de maneira calma e ordenada”, relatou Dines, que se encontrava em Nova York. A abundância de imagens à disposição dos editores reduz o tempo disponível para um exame mais detalhado de cada uma delas. Mas o fundamental é a facilidade. Mesmo num mundo de informações globais e instantâneas, ainda parece fácil exagerar o que ocorre longe de nosso quintal.

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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Autor

Eliziario Goulart Rocha

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