A minha mãe que era uma sábia criatura – e por quem eu choro todo o santo dia de uma saudade dilacerante que nunca termina – tinha um ditado apropriado para cada situação da vida. Para as cenas mais inusitadas do cotidiano, lá vinha a Dona Mirthô com um provérbio que se aplicava exatamente, sob medida, para tal fato. Poderia aqui citar muitos. Mas correria o risco imperdoável de esquecer os que mamis pronunciava com mais frequência e alguns até que terminei até por ensiná-los à minha filha. Tem um muito feio e muito deseducador, mas que eu disse tanto que Gabriela sabe: “vergonha é roubar e não poder carregar”.
No meio da pandemia do Covid-19 e da necessidade de isolamento, às vezes, me pego a imaginar como seria o comportamento da minha mãe. Se estivesse viva, com seus 85 anos, morando a alguns quarteirões da casa do meu irmão em Butiá, como a véinha se controlaria para se manter no confinamento? Mirthô seguraria sua vontade de ver os netos e apertá-los? E será que conseguiria resistir e não amassar de beijos e carinhos a sua nora amada? E já não estaria buzinando nos meus ouvidos que eu deveria dar um jeito de ir lá em Butiá vê-la? Como estaria minha mamis nestes meus 170 dias de distanciamento total?
Uma certeza eu tenho. Assim como eu, Mirthô não desligaria um só minuto das notícias da televisão. Ela estaria todos os minutos em que estivesse desperta com a televisão ligada no seu canal preferido. Neste ponto, somos diferentes. Eu passo muito tempo do meu isolamento vendo os telejornais. Mas não fico num só canal. Chego a ter câimbra no dedo de tanto trocar de canal no controle remoto para saber tudo sobre o Covid-19. Por entre fotos e nomes, quem lê tanta notícia?
Numa destas tantas horas que passei com os olhos vidrados na telinha, fiquei sabendo que um cantor sertanejo estava internado com Covid-19 e, eu, assim como o Brasil inteiro, fui obrigada a conhecer tudo sobre o famoso quem? Me perdoem os fãs deste cidadão de nome Cauan e que faz dupla com o mais famoso ainda Cléber pela minha total e indesculpável ignorância sobre a vida profissional deste rapaz. Mas, por ser um privilegiado, Cauan não precisou perambular em busca de vaga em hospitais lotados e, após 14 dias internado, inclusive em UTI, finalmente o cantor teve alta e voltou para a sua casa.
Com toda a família positivada para o Coronavírus, Cauan foi um dos tantos deste Brasil negacionista que fez pouco caso da doença. Mais no início das primeiras notícias do Covid-19, com a responsabilidade que cabe a alguém que diz ter fãs e seguidores pelo País, ele fez um vídeo postado nas suas redes sociais em que aparece desdenhando da doença. Em recente entrevista, o mais novo ídolo do ritmo sertanejo afirmou que “teve dois surtos muito fortes e naquele momento ele preferia morrer a sentir aquilo”. O moço que brincou com o Covid fala com a respiração ofegante e não esconde o cansaço.
E, sem talvez medir o estrago que já produziu – uma vez que parece ter mesmo fãs espalhados pelo Brasil – ele agora quer pedir desculpas e se retratar. Como ele fez isto? “Pedindo que as pessoas deem a importância que a doença merece”, desabafou Cauan, sem raciocinar que parte de seus adoradores, ao verem aquele vídeo em que ele menosprezava o Covid-19 já ignoraram – baseados na sua orientação – e dispensaram as normas recomendadas pela OMS e devem sim ter se contaminado e passado para familiares, amigos, vizinhos e outros com quem esbarraram na rua.
Fiquei pensando que a sabedoria da Mirthô teria sim um ditado para o famoso Cauan e seu vídeo desafiando que o Covid-19 poderia sim vir pegá-lo. Creio que tem um provérbio que diz: “quem desdenha quer comprar”, Entretanto, como a mamis era uma pessoa extremamente bondosa, evoluída, com a alma iluminada, seguidora de bons pensamentos, com fé ainda nos seres humanos, ela jamais iria sequer deixar escapar esse ditado, embora ele pareça feito sim sob encomenda para o desprezo do sertanejo com a doença.
Mas eu, como já estou há 171 dias isolada, seguindo sem pestanejar as recomendações da OMS e do meu médico reforçadas na consulta desta terça-feira, cansada de ver tanto negacionista adoecer e pegar vaga em hospital de quem cumpriu à risca o isolamento, de ver tanto idiota lotar parques, lojas e se aglomerar sem necessidade, de ver tanto babaca mentir que faz o confinamento e postar fotinho de reunião em rede social, não tenho a mínima necessidade de ser meiga, miss ternura e evoluída com a falta de empatia de todos. Que se danem!

