A euforia é abrasiva

Por Matheus Freire, para Coletiva.net

Contenha-se! Controle-se! Não se exponha! Tantos comunicólogos já disseram ou ouviram isso, mas qual seria a razão de profissionais que trabalham com a administração dos sentidos não poderem usar suas principais ferramentas? Seria a euforia uma inimiga?

Segundo uma breve e objetiva busca no dicionário do Google, na visão da psicologia a euforia é o "estado caracterizado por alegria, despreocupação, otimismo e bem-estar físico, mas que não corresponde nem às condições de vida, nem ao estado físico objetivo". Seria, então, a euforia uma forma um tanto quanto, por assim dizer, equivocada, de demonstrar algum tipo de felicidade? O estado de euforia é então algo ruim? Fake? Que não retrata de fato os reais sentimentos, ou pior, recria uma imagem distorcida de uma felicidade que nem existe?

No auge dos meus 30 e poucos anos, de uma vez por todas, começo a entender que o estado de euforia, muitas vezes, como citado no início do texto, é algo a ser contido, de fato, não exposto. Assim, como tanta gente boa já tentou me dizer nesta década de atuação no mercado. Mas só agora, vivendo pra crer, tudo passa a ter algum tipo de fundamento mais sólido, e isso, que tantas vezes me foi dito, porém eu não ouvia, passou a fazer um pouco mais de sentido. Eu, Y que sou, fui saber a partir de uma simples busca no Google, que a tal da euforia é mesmo abrasiva.

O que se estuda lá nos primeiros semestres da faculdade de comunicação social, na disciplina de Comunicação Integrada, leva a crer que os comunicólogos estão certos. Contenha-se. Controle-se! Organize-se, não se exponha, muito menos exponha alguém, uma marca ou uma história não autorizada. Comunique com coerência, seja para seu público interno ou externo. Preocupe-se com a mensagem que está sendo transmitida. Toda missão, visão e os valores de uma estrutura de comunicação não podem passar de uma simples euforia. Tem que ter sentido, tem que ter interlocutores, colaboradores engajados, público impactado; uma mensagem de fato só é transmitida quando levada em consideração, ainda que antigo, porém coerente, três palavras: emissor, mensagem e receptor. Temos de ter esse senso, ou menos deveríamos tê-lo.

Nosso papel e missão na sociedade, como profissionais da comunicação, é levar informações; sejam elas criadas por publicitários, a partir de estudos comportamentais e verídicos acerca de estudos etnográficos, dados demográficos, ou histórias de vida reais; contadas por jornalistas, que retratem algo que vai além da exposição desnecessária de uma vida, apenas para satisfazer o público que está lendo, vendo ou ouvindo uma notícia. Há de existir este acordo entre todos os profissionais, que felizmente são maioria, de que a euforia não é informação, de que a euforia não forma conceitos para uma marca, não cria uma ideia verdadeira, não transmite mensagem, ou uma história real de vida; mas de que sim, a euforia precisa ser contida e mantida internalizada.

Façamos das nossas vivências profissionais importantes exemplos a ser seguidos; a Felicidade de uma conquista é algo, sim, a ser compartilhado. Case é aquilo que deu certo pra um triângulo de envolvidos, e não apenas um lado. É bom quando o cliente vende; é bom quando o veículo cresce, em audiência e faturamento, é bom quando agências se reinventam valorizando profissionais, capacitando-os e remunerando-os com o devido valor e respeito que merecem.

Eu, que nada sei, comecei o texto achando que era errado não viver em estado de euforia, agora percebi que isso se chama maturidade, talvez. Certezas, pelo menos na nossa área, não existem. Mantenha-se com energia, vitalidade, força e determinação para criar cases, formar pessoas, líderes, liderados, anúncios épicos, filmes inesquecíveis, notícias que inspirem e prestem serviços. Mas deixe a euforia de lado. Ou a nossa linda e bela comunicação vai virar um devaneio. Mantenha-se firme, com os pés no chão, olhando pra cima e sonhando. Mas deixe a euforia pra quem tá começando; e se tiver como dar um conselho pra quem tá dando os primeiros passos, não tenha medo. Contenha-se! Controle-se! E não se exponha!

Euforia não vende, não renova e não encanta.

Matheus Freire é publicitário e lidera a operação da M7 Multi.

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