Alguém não leu o que deve ser feito

Por Almir Freitas, para Coletiva.net

Há pelo menos duas décadas me dedico aprender e observar com a comunicação empresarial e no convívio com diferentes organizações e suas soluções e problemas na área. Esse período me ensinou que muitas, talvez a grande maioria, renegam alternativas da área para problemas que se visualizam no médio ou longo prazo. Uma mostra disso é a tragédia de Brumadinho que teve seu início na última sexta-feira, 25 de janeiro.

Toda grande organização, com uma estrutura voltada para os mercados nacional e internacional, tem - ou deveria ter - um procedimento PREVENTIVO para se antecipar às crises, bem como realizar a gestão desse movimento no caso de uma ocorrência. O comportamento da diretoria da Vale S/A e seu presidente, Fabio Schvartsman, revela o despreparo de uma instituição multinacional com US$ 5,5 bilhões em investimentos e mais de 73 mil empregados.

Lembro de trabalhos realizados nos quais o principal gestor da empresa da área petroquímica se cercava de precauções técnicas e iniciativas administrativas para que um episódio envolvendo um dos produtos fabricados pela empresa fosse enviado. Os teóricos da Administração e da Comunicação já nos ensinam, há algum tempo, que a crise não é o fato, mas o desdobramento dele. Jamais um profissional na posição de um CEO de uma multinacional pode dar a chance de a imprensa ficar sem resposta. Não existe o "não sei" em um cenário como o de Brumadinho. Se ele não sabe o nome de quem limpa o chão de um refeitório, para dizer o mínimo, alguém que deveria estar sentado ao seu lado saberia.

Imprensa precisa de informação, precisa de detalhes e, ir para uma coletiva três anos depois da tragédia ambiental de Mariana no qual a mesma organização está envolvida, um comportamento desse tipo é uma pá de cal na imagem, no valor, nas ações, no respeito a uma organização como a Vale. Ainda se espera mais esclarecimentos sobre as causas da crise de Brumadinho.

Vivemos um novo momento no mundo, e não apenas no Brasil, onde a informação se prolifera "do chão", onde um programa de rádio, de televisão ou digital é feito por ouvintes, espectadores e internautas, que compartilham a informação. A ser checada, claro.

E aí surge mais uma lição de quem ensina a receita para sair da crise: convencer a todos, inclusive à mídia, de que não houve negligência por parte da organização. Seria leviano de minha parte supor que uma multinacional como a Vale S.A. negligenciou as consequências de Mariana. Em vez disso, prefiro me concentrar em fatos: três anos depois que 40 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de minérios de ferro acabaram com a vida no distrito de Bento Rodrigues, na região central de Minas Gerais, ninguém foi preso e os processos envolvendo executivos da Samarco, Vale e BHP Billiton tramitam na justiça ainda sem data para julgamento. Das 68 multas aplicadas por órgãos ambientais, apenas UMA está sendo paga em suaves 59 parcelas. Será que o bloqueio de bilhões de reais feitos desta vez vai acelerar o processo? A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, disse que o fato requer providências firmes das instituições. Mesmo? A prisão de consultores é a ponta do iceberg.

Traçando esse cenário, juntando fatos, é fácil entender - mas longe de aceitar - a manifestação de Fabio Schvartsman: "Como vou dizer que a gente aprendeu (após o ocorrido em Mariana) se acaba de acontecer um acidente desses? O que posso dizer foi o que a gente fez depois do acidente". Tenho o direito de imaginar que não, não foi feito o que deveria para evitar uma crise como Brumadinho.

Tenho que considerar também a possibilidade que nada pode ser feito - algo bastante insano para uma organização multinacional e em um mundo tecnológico como o atual. A empresa, como a Odebrecht em outras proporções - precisará de alguns anos, talvez décadas, para recuperar sua credibilidade, para tirar os holofotes de seus atos, para se recuperar financeiramente. O começo sempre é conhecido: fazer o tema de casa, olhar para dentro da área técnica, avaliar a operação, seus riscos e crises em potencial.

Mas, não poderia terminar essas divagações de dentro do conforto do ar condicionado, sem antes tentar entender para onde nós, a imprensa, vamos. A ansiedade em se buscar culpados, em buscar responsáveis em uma tragédia como a de Brumadinho - e Mariana também - não pode sobrepor ao fato da notícia naquele momento que é o drama humano. Para isso, tem tempo. O mesmo tempo que a imprensa teve em mostrar a falta de comprometimento das autoridades públicas federais com uma solução para Mariana. Ah... esqueci: cansa falar sobre a mesma coisa.

Entãom vamos para algo mais recente. A Agência Nacional de Água (ANA) divulgou em novembro um relatório sobre as situações de barragens no Brasil inteiro - duas no Rio Grande do Sul - no qual apontava problemas em algumas. Verdade seja dita que Brumadinho não estava na lista.

Estou entrando em uma fase sexagenária, onde, para mim, profissional de imprensa informa, mas não faz a pergunta: "o que você pode dizer nessa hora?", em que procura a filha, a mãe, o pai, o irmão, a mulher ou o marido. Um dia alguém vai responder: me sinto feliz!

Almir Freitas é professor da Famecos, da PUC, e diretor-geral da Ufizzi Comunicação e Relacionamentos.

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