Ingênuo, porém sempre sincero

Por Paulo Trindade, para Coletiva.net

Ao ser convidado a escrever este artigo me deparei com inúmeras ideias. Primeiramente, pensei em temas polêmicos, mais críticos, mais ácidos que afligem o nosso mercado publicitário. Depois, achei que não seria contributivo. Pra quê tocar a ferida e esperar que todos nós pudéssemos acordar no mundo de Alice no outro dia?

Mas hoje, passeando pelo meu Facebook, cruzei com inúmeros profissionais renomados e com grandes realizações pela Propaganda Gaúcha. Um saudosismo me tocou e fiquei me lembrando de um tempo que não existe mais. Mas o que faz um determinado período ser diferente do outro? A grande questão do milhão se materializou em um pensamento anárquico e bobo. Talvez isto que nos falte nos dias de hoje. Vamos lá...

Em meio a esta crise que nos afeta por quatro anos, o mercado publicitário gaúcho mudou. Alguns dizem que diminuiu. Por muito tempo, vinha adotando este dogma. O mercado diminuiu! O nosso mercado publicitário irá acabar! As agências de propaganda estão fadadas a morrer! Os grandes veículos de comunicação desaparecerão! Uma série de frases que passaram a ser usadas no nosso dia a dia e que viraram verdadeiros mantras negativos.

Na nossa falta de capacidade de olhar para dentro e buscar respostas mais concretas, aderimos aos mantras negativos. Foi a forma que achamos para explicar o nosso momento. Mas mais que isto, foi a forma que achamos para explicar a nossa falta de capacidade de olhar para dentro e nos descolarmos desta inércia moribunda, a qual não tivemos coragem de enfrentar: nós precisamos mudar! Nós somos o mercado! E vamos mudar o jogo!

Não foi o mercado publicitário que diminuiu. Nós, enquanto profissionais, é que diminuímos! Fomos nós que aceitamos a crise! Fomos nós que escolhemos as planilhas de Excel para tocar o negócio! Fomos nós que nos tornamos covardes e teimosos em tentar manter modelos de negócios que não tem mais sentido no dia a dia do mercado publicitário. Deixamos de ter sangue nos olhos, abandonamos a paixão, a determinação, a criatividade, a fé naquilo que aprendemos e sempre receitamos aos clientes. Tornamo-nos medíocres, medianos, heróis sem causas e passamos a ter as nossas competências questionadas por quem nos contratava e esperava algo de nós.

Perdemos a ingenuidade de acreditar que poderíamos fazer a diferença. Perdemos o poder de mobilização em pôr a melhor ideia na rua pra vendermos mais para nossos clientes. Perdemos o tesão... Baixamos a cabeça! E fizemos a pior escolha. Escolhemos as planilhas de Excel como grande gestora do nosso negócio!

Este mundão de meu Deus é grande e complexo. Lógico que movimentos mundiais, ou mesmo nossa classe política, podem ajudar a complicar o que já estava difícil, mas diante de tudo isto, não fomos capazes de apontar as saídas ou a luz no fim do túnel. O mercado publicitário gaúcho ainda mais não foi capaz de se reinventar. As planilhas de Excel continuam empurrando profissionais experientes para fora do negócio em prol da saúde financeira de modelos ultrapassados. Quando mais precisamos das pessoas boas e experientes para mudar o jogo, mais as planilhas de Excel debocham do nosso negócio que é feito por pessoas, não de números.

Enquanto isto, sofremos entre o mundo digital e a mídia tradicional, BVs (PIAs), fusões, inovação, teorias de auto ajuda, se o Bolsonaro nos salvará, qual o time preferido do novo governador... E como será a próxima festa no Salão da Propaganda.

Mas e o cliente? Ou vulgo anunciante... Não vão se safar, não. Aderiram e assumiram a crise para assegurar o sucesso de suas planilhas de Excel. Muitas marcas novas surgem em meio à crise. Logo, não posso aceitar os mantras negativos que tudo está horrível. Todas elas foram além de suas planilhas e se fizeram forte no mercado, ocuparam espaços antes ocupados somente pelas grandes marcas. Novos formatos e modelos surgiram na relação de consumo das pessoas. Por quê?

Até alguns dias atrás eu compactuava com os mantras negativos para explicar a crise e a diminuição do nosso mercado publicitário. Hoje, não aceito mais essas afirmações e vou buscar fazer diferente!

Ingenuamente, concluo: as pessoas farão o sucesso do nosso negócio. Não as planilhas de Excel!

Paulo Trindade é executivo de contas na Band RS.

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