O jornalismo e uma eleição disruptiva

Por Alexandre Elmi, para Coletiva.net

Disruptivo é um termo usado para qualificar determinados contextos de inovação tecnológica. De uma forma bem simplificada e subjetiva, disrupção significa a força que reinventa um determinado processo, negócio ou produto a ponto de mudar a sua natureza e alterar o seu curso normal. Creio que é uma palavra apropriada para ilustrar o impacto dessa eleição sobre o jornalismo no Brasil.

Os ambientes digitais já vêm transformando a nossa atividade nos últimos 15 anos. Eles esticaram a corda da sobrevivência dos negócios, alteraram os hábitos da audiência, renovaram formatos e linguagens. Tudo está muito diferente. Mas os territórios e as relações digitais deram contornos disruptivos ao último certame disputa eleitoral justamente porque alteraram o curso natural da disputa, e o jornalismo precisa se adaptar a essa alteração de prumo se quiser manter a relevância da sua cobertura política.

Por que essa eleição foi disruptiva? Sem entrar em detalhes, destaco um eixo de compreensão. De uma forma geral, a eleição de 2018 consolidou uma nova cultura de fazer e consumir política, marcada pela descentralização radical, pela circulação descontrolada de informações, pelo engajamento digital e orgânico, pela relativização da verdade, pelo deslocamento da relevância das mídias tradicionais para mídias customizadas. São muitos os pontos. Diria, de uma forma bem simplista, que a eleição se horizontalizou, achatou os seus parâmetros, o que obrigatoriamente sacode o jornalismo.

Tentando pensar disruptivamente, sugiro algumas formas novas de lidar com as mudanças percebidas nesta rodada eleitoral. O jornalismo já vem trabalhando em algumas dessas frentes, mas talvez tenha que nadar com mais afinco a partir de agora, se quiser chegar seguro a outra margem do rio:

1. Mais transparência: Nunca a imprensa foi tão criticada, por militantes e eleitores, como nesta eleição. A imprensa sempre é escolhida como inimiga, não adianta muito lutar contra isso, mas podemos mitigar os efeitos dessa renovada desconfiança apostando em mais transparência.

Desde os primeiros dias deste novo ciclo eleitoral, precisamos ampliar os canais de transparência dos veículos, mostrando como os conteúdos são produzidos, e as decisões editoriais, tomadas. É urgente criar uma cultura permanente de transparência, profunda, esmiuçando os processos e os bastidores jornalísticos, fixando e divulgando métricas de transparência acessíveis. Esse esforço por tornar mais claro o jornalismo para a sociedade passa inclusive pelo compartilhamento de eventuais posicionamentos político-ideológicos e de interesses econômicos das empresas;

2. Mais mediação: A conversa pública que realmente decidiu os votos em 2018 não foi travada exclusivamente nos canais da mídia tradicional nem nas redes sociais abertas. Os aplicativos de comunicação direta, como WhatsApp e Telegram, teceram decisivas linhas de confiança que guiaram as escolhas pessoais.

Aqui, três ações poderiam ser aprimoradas: treinar jornalistas para acompanhar e participar de determinadas conversas, com postura de colaboração e esclarecimento, não de donos da verdade; criar grupos específicos que estimulem o diálogo com informação de qualidade; e produzir conteúdos (cards, gifs, etc.) livres, o que quer dizer com acesso gratuito, lastreado por informação densa e checada para que possa ser compartilhada e viralizada. Essa mediação pode se socorrer de ferramentas automatizadas;

3. Mais autonomia: Ficou claro, para mim, que o jornalismo que fez diferença na eleição foi o que seguiu uma pauta própria. Cito a Folha de S.Paulo e The Intercept, como poderia citar outros. Não adianta ficar cobrindo as birras das redes sociais, a pauta que emerge delas e a agenda dos candidatos. É necessário inverter o fluxo, investigando e apurando para contar histórias relevantes, exclusivas, que incidam sobre o debate digital paralelo a ponto de criar novos cursos, não apenas pegar carona. Não estou falando de algo necessariamente inovador ou disruptivo, pelo contrário, pois contar histórias exclusivas é parte da essência da atividade do jornalista profissional.

Tenho a sensação de que nesta eleição observamos dois grupos de veículos: a mídia que contou o que estava acontecendo e a mídia que incidiu sobre o que estava sendo falado. De que lado queremos estar? Claro, teve a mídia que se filiou a determinada candidatura, mas essa não interessa aqui. Neste esforço de autonomia, também creio que devemos nos concentrar nos problemas reais, concretos, nos projetos de governo, fugindo sempre que possível de polêmicas dispersivas, artificiais, infladas na internet justamente para funcionar como cortinas de fumaça da atenção coletiva;

4. Mais debate: Cá entre nós, não podemos ficar sem debates eletrônicos entre as propostas dos candidatos proeminentes. Do ponto de vista dos formatos, os principais canais de jornalismo profissional precisam se preparar para oferecer alternativas de confrontação de ideias e propostas, independentemente da disposição de um candidato em participar deles porque não tenha interesse eleitoral, ou seja, impedido por uma condição inusitada.

Há ferramentas para isso: entrevistas em horário e espaços nobres com perguntas duras, equilibradas e isonômicas, programas ou reportagens especiais de comparação dos programas, conteúdos analíticos de profundidade, hangouts. O que não pode é o eleitor ficar sem a informação comparativa, pois isso é a própria função do jornalismo em sociedades democráticas;

5. Mais contexto: Isso já aconteceu em 2018 e deve ser aprofundado, mas será que funcionou? Mais interpretação, mais dados, é receita permanente, lógico, mas olhem o que havia de informação disponível e pensem no que circulou de absurdo apesar de todo o esclarecimento. Não podemos mais negar que as pessoas agem como filtros de distribuição do conteúdo produzido e que todo o esforço de profundidade e equilíbrio não garante uma circulação livre de distorções.

O esforço de contextualização precisa dialogar com os monstros específicos que emergem do ambiente digital. Respeitar as teorias conspiratórias e oferecer informações que ajudem a contestá-las. Fazer isso apostando em formatos alongados e simplificados, para atender todas as demandas da audiência, inclusive respeitando a linguagem mais leve da internet. Mais infografias, mais animações, mais vídeos, com um tom didático adequado à lógica superficial e descompromissada de consumo de informação em ambientes digitais;

6. Nova temporalidade: Essa eleição deixou claro que se preocupar com a disputa eleitoral apenas na véspera é um erro estratégico para os candidatos, e também pode ser fatal para o jornalismo profissional. A eleição tem um calendário próprio, e agora ele é permanente.

Os candidatos mais exitosos estão em campanha há muito tempo, assim como as redes de fidelidade que consolidaram candidaturas também estão sendo consolidadas bem antes de 2018. Então uma cobertura eleitoral sensível a esse cenário temporal mais dinâmico e fluido (não vou usar o clichê 'líquido', mas bem que poderia) começa com uma cobertura política permanente, já dentro destes novos parâmetros, para oferecer conteúdo à medida que essas mentalidades e sentimentos eleitorais forem se constituindo;

7. Mais checagem: Essa foi a eleição da checagem, mas será que elas foram eficientes? Não estou desmerecendo, até porque não há como essa atividade não ser mais exercida, por todo o tipo de projeto jornalístico. Lamento muito que uma quantidade enorme de energia jornalística tenha sido usada para checar informações muito improváveis, quase absurdas, mas não sei se temos como fazer diferente, porque informações mentirosas, claramente inventadas, continuarão a circular e devemos barrá-las.

Talvez seja fundamental qualificar a relação tecnológica com as redes sociais digitais que permitem a circulação desses conteúdos, para criar algum tipo de monitoramento ou obstáculo, respeitando a liberdade, mas muito mais do que isso não creio que seja possível. Acredito na formação de uma cultura de respeito e de consumo de checagens jornalísticas, o que se pode fazer com mais educação para a mídia. Também valeria incorporar a checagem ao cotidiano das coberturas, em todas as áreas editoriais dos veículos e projetos jornalísticos, com o objetivo de despertar a afinidade do público em relação a este tipo de informação;

8. Mais colaboração: Se a nova disputa eleitoral mobiliza indivíduos dispersos em torno de candidaturas, será que as coberturas jornalísticas também não podem encontrar formas de colaboração? Como se conseguíssemos formar frentes de cobertura especializada, compartilhada, ampliando a noção de unidade e valorizando a imagem coletiva da atividade de informar e opinar profissionalmente.

O projeto Comprova - uma coalizão jornalística para confrontar informação mentirosa - mostrou que isso é possível para o universo do fact-checking, mas será que uma espécie de Projeto Contexto, de perfil semelhante, não poderia produzir e fazer circular conteúdos de esclarecimento sobre os principais problemas das comunidades e as soluções pensadas pelos candidatos? Mais compartilhamento e colaboração estão no cerne de muitas forças disruptivas digitais, e o jornalismo precisa se nutrir deles. Precisamos dizer que estamos juntos como produtores de jornalismo profissional.

Enfim, alinhavei acima apenas alguns pontos, breves sugestões do que podemos pensar em fazer para enfrentar o novo cenário de cobertura eleitoral. Já estamos fazendo isso, mas precisamos radicalizar as ações. Tenho noção das dificuldades estruturais, na medida em que as redações brasileiras profissionais, em regra, estão constrangidas por falta de pessoal, remuneração deficiente e falta de recursos para financiar jornalismo com independência. Mas temos obrigação de seguir buscando o aperfeiçoamento, pois só o jornalismo pode salvar o jornalismo.

Essa eleição nos escapou, de inúmeras formas. Inclusive, vimos pelas redes sociais e pelo discurso do candidato vencedor no pleito para o Palácio do Planalto, que a imprensa está sendo tratada como inimiga de projetos políticos com o propósito de mobilizar e fabricar unidades ideológicas e eleitorais circunstanciais. Ou entendemos que um novo jornalismo político precisa se sincronizar a uma nova forma de disputa eleitoral, ou corremos o risco de perder consistência em meio a tanto barulho digital. Penso que o melhor seja tentar aprender algumas dessas lições de disrupção e oferecer conteúdos adaptado a elas.

Alexandre Elmi é jornalista.

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