Carta aberta sobre a depressão | Parte 2: Desistir não é uma opção

Por Tássia Jaeger, para Coletiva.net

No ano passado, escrevi um artigo aqui para o Coletiva.net sobre a depressão, aproveitando o gancho do Setembro Amarelo. Nele, abri meu coração e minha vida explicando como aceito, convivo, driblo e venço a depressão dia a dia, e cada vez mais. O objetivo foi levar conhecimento aos que não sofrem ou não convivem com a depressão (diminuindo os julgamentos e preconceitos), assim como mostrar que você, que sofre disso, não está sozinho. 

Hoje, venho aqui falar novamente desse tema, já que ano passado o texto teve grande repercussão, informando, ajudando e confortando muita gente. Mas, desta vez, é por outro viés. E o motivo de publicar agora é devido ao Janeiro Branco, outro mês para falarmos de Saúde Mental. O tom agora é leve, bem humorado, como deve ser a vida, ainda mais no verão, a estação que mais amo e me faz bem. Aquela que chamo, carinhosamente, de "estação da cura".

Antes disso, permita-me retomar a dor de um depressivo... Depressão não é drama, frescura, mi-mi-mi, falta de Deus. Uma pessoa depressiva tem uma doença, ou seja, depende de medicamentos e médicos. Uma pessoa depressiva é incompreendida. Ela sofre por questões dela, sim; mas, muitas vezes, sofre mais pelos outros do que por si mesma. O sofrimento que o outro vive ou tem dói profundamente nela, tornando-se seu. Ou seja, ela sofre por ver alguém sofrendo, sofre por ver alguém fazendo o outro sofrer. É uma esponjinha. Sofre por sentir-se impotente para curar suas dores, assim como as dores dos outros. 

Dito isso, meu papo hoje é com as pessoas que têm depressão. Como conviver e viver com essa doença? Longe de mim querer oferecer a fórmula ou receita. Não sou psicóloga, psiquiatra e nem terapeuta. Sou só uma pessoa que é a prova viva de que dá, sim, para viver com a depressão e, ainda assim, não deixar a peteca cair (só dar um tempo!). São conselhos de quem quer ajudar unicamente. Pegue aquilo que acredita, que pode funcionar para você, e aplique, se desejar. 

A sugestão é: escreva em um caderno, bloco de notas, no que for, estas dicas abaixo; e toda vez que a crise estiver se aproximando, leia isso, ok? Acredite, eu já consigo parar essa "moça de preto" na porta só respirando, pensando e conversando comigo mesma. São anos de prática de uma menina e mulher que, na maioria das vezes, buscou resolver sozinha seus fantasmas para não preocupar, incomodar ou afastar os outros que não compreendem, não sabem ou não querem lidar.

Buenas, vamos lá! Um depressivo tem crises devido à gatilhos, portanto, existem dois caminhos. Um é evitar esses gatilhos e outro é enfrentá-los. Cabe à pessoa decidir o que é o melhor para aquela situação e seu momento. Vou dar exemplos baseados especificamente nos meus gatilhos, e você testa o que couber, combinado?

01: Faça a gestão da frustração: tem uma frase ótima de um humorista que diz: "A vida não tá nem aí pro teu planejamento". Grande verdade! Temos mania de sonhar e idealizar pessoas, situações e momentos. Até aí, tudo bem. Imaginar está liberado. O problema reside em sofrer demasiadamente quando algo não sai conforme o planejado. A verdade da vida é que, dificilmente, as coisas saem como a gente planeja. 

O trabalho dos sonhos não era tudo isso; o sonho da vida de família de margarina só existe na TV e no Instagram, porque todo mundo têm problemas ("e fora dos stories, você tá bem?"); os solteiros querem casar e, quando casam, se arrependem, e os casados querem separar e, quando separam, se arrependem; a gravidez e a espera pelo bebê é um sonho, mas a criança não se torna o adolescente ou adulto que você sonhou e tentou moldar, educar; a meta de morar no campo ou na praia não se realiza por barreiras pessoais que surgem; o corpo que você deseja só existe em algum Instagram tóxico de um influenciador digital cheio de filtros; e por aí vai. 

Resumindo: pare, IMEDIATAMENTE, de planejar e sonhar caso você não seja capaz de aceitar as mudanças de planos e as expectativas frustradas quando ocorrerem. Simplesmente aceite a vida como ela é, e, como diz o Cortella: "Faça o teu melhor, na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores para fazer melhor ainda!" Eu admito que tenho dificuldade para aceitar coisas que fogem completamente da minha expectativa (e como têm tido coisas nos últimos anos, eita!). Eu só não permito que isso me gere mais crises, porque sou a única que perde com isso, entende? Até porque eu não sou a única que passa por isso, a diferentona.

02: Sofra com moderação: vamos partir do pressuposto de que você não é de ferro, é humano, e vai sofrer, sim senhor, caso algo não saia como o esperado. Tudo bem. Eu não estou aqui dizendo que você não pode, de jeito nenhum, em hipótese alguma, sofrer. Eu estou dizendo que dá para fazer isso com consciência. É importante chorar, colocar para fora, como dizem. Faz bem para o coração, alma, corpo. Mas sabendo que esse sofrimento faz parte do processo, ok? 

Levou um fora do namorado? Chora, fica de luto. Deve! Afinal, você sonhava em casar, ter filhos, e aquele desgramado acabou com seu sonho. Coloca Marília Mendonça no som e canta em alto e bom som, depois se une às coleguinhas, "põe aquela roupa e um batom, amiga entra no carro e aumenta o som". Comigo sempre funcionou! 

Alguém está com um problema grave de saúde, se acidentou, faleceu. É óbvio que você vai sofrer, caso contrário, eu questionaria sua frieza. Mas não permita que você adoeça por conta da doença do outro; que você morra porque o outro morreu. Você está vivo e você precisa viver. É a triste lei da vida. Como dizem: "Para morrer, basta estar vivo". O que não podemos aceitar é que você esteja morto em vida. Portanto, viva em toda sua plenitude, porque uma hora, que você não escolhe, isso acaba. E aí, você viveu ou só sobreviveu? 

03: Fuja de ambientes tóxicos (ou use máscara): quando alguém, algum lugar ou alguma ocasião me fazem mal e tenho como evitar, eu simplesmente evito. Por muito tempo não fiz isso, me submeti. Até que aprendi que eu estava me chicoteando. Por que estava num lugar que eu não gostava com tantos lugares que gosto pela cidade? Por que estava perdendo meu tempo falando com pessoas que só me colocavam para baixo ou não me acrescentavam em nada, tendo tantos amigos e pessoas que faziam o contrário? Por que estava naquela situação de novo se eu já tinha vivenciado aquilo algumas vezes e sabia que não era bom, saudável e justo comigo? Feito isso, decididamente parei de me colocar nessas posições. 

Já quando alguém, algum lugar ou alguma ocasião me fazem mal e eu não tenho como evitar, eu busco conversar comigo mesma em uma bolha imaginária. Penso coisas como: "Respira, logo vai acabar e tu já vai estar em casa de novo", ou "Ignora, não dá para essa pessoa o poder de ela conseguir o que quer, tu é mais forte que isso". Ou ainda as clássicas da Internet: "Abstrai e finge demência" ou "Pelo bem da sua saúde mental, se faça de doida de vez em quando", com o perdão dos termos. Resumindo: aprendi a me respeitar, me preservando e poupando de qualquer energia ou gatilho negativo, sempre que possível. Ah, e não esqueça: tape o umbigo!

04: Seja mais forte que você: eu tenho duas tatuagens no meu corpo que são alusivas à luta contra a depressão. Uma delas é um sol, porque a vitamina D exerce um papel fundamental na minha saúde mental e porque costumo ficar muito melhor no verão. Um dos meus sonhos de vida é morar na praia, perto do mar, onde eu possa caminhar, correr, andar de bicicleta, treinar, ler com a brisa que vem do mar e com o sol acariciando a pele. O sol representa a luz que me tira da escuridão de uma crise. 

A outra tatuagem, da Clarice Lispector, diz: "Eu sou mais forte que eu". A frase é um diálogo comigo mesma toda vez que aperta pro meu lado. Portanto, deixa eu te contar uma coisinha que talvez não tenham te contado. No final das contas, é sempre você por você mesmo. Então, mesmo sabendo que você tem pessoas, sejam amigos ou familiares, com quem contar, na hora que "o bagulho fica doido", lembre-se que o poder de cura e mudança depende única e exclusivamente de você.

E, para encerrar, eu lembro a frase do título: Desistir não é uma opção. O que significa que você pode chorar, ficar um dia na cama de ressaca emocional, tomar remédios, fazer terapia, tudo que for preciso para se fortalecer, mas nunca se entregue. 

Pausa para uma história? Uma amiga me disse esses dias que sou um imã de problemas. Que é só falar "Problema", que a Tássia diz: "Estão falando comigo? Manda mais que tá pouco!". Foi uma brincadeira para me dizer o quanto sou forte. Eis que estou ficando expert em gestão dos problemas, o equivalente a graduação, pós, mestrado e doutorado nessa especialidade ainda inexistente. No vestibular, coloquei duas opções: Jornalismo e Psicologia. Deus sabe o que faz, se eu virasse psicóloga eu surtava real. Hoje, como diria Ivete: "Não me conte seus problemas, hoje eu quero paz e quero amor". "Só hoje", Rogério Flausino! 

E meu maior conselho para todo mundo que tem depressão é: sejam otimistas! O pessimista só piora tudo. Fiquem felizes com a felicidade dos outros (eu chego a chorar pela conquista alheia, juro!), comemorem as pequenas vitórias (em cada contexto significa algo. Observem e celebrem porque um pequeno passo pode significar algo grandioso para uma pessoa), não reclamem de tudo e de todos o tempo todo (isso afasta as pessoas, além do universo ouvir e suas palavras atraírem mais coisas para reclamar), agradeçam pela vida, pela saúde, pelos amigos, pela casa, por tudo que tem (alô! Só por isso você já devia ser feliz!), não desejem a mulher do próximo, nem o carro, a casa e a vida (amem as suas vidas, poxa! Que coisa bem feia). Sejam leves. Se ajudem, se curem. E lembre-se: você é mais forte que você. Se o gatilho vier, desacione, não atire. Sejamos Clarices.

Tássia Jaeger é CEO da W[Right] Conteúdo, coordenadora Editorial das revistas do selo Tendências (de Coletiva.net) e analista de Comunicação do BWG.

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