Celebrações de Abril

Por Cleidi Pereira, para Coletiva.net

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

Ainda guardo renitente

Um velho cravo para mim

Sábado, 25 de abril de 2020. Pela primeira vez em 46 anos, a Revolução dos Cravos não foi comemorada nas ruas de Portugal. Com o país em "estado de emergência" devido ao coronavírus, foram cancelados os tradicionais desfiles e concertos, além da distribuição de cravos, a flor encarnada que virou símbolo do movimento que pôs fim a uma das mais longas ditaduras da Europa. A pandemia, no entanto, não afetou o desejo de celebrar a democracia e a liberdade. De norte a sul, portugueses foram às janelas e varandas cantar "Grândola, Vila Morena", que foi a senha para que as Forças Armadas, com apoio da população, tomassem as ruas e colocassem um ponto final ao regime autoritário após 41 anos.

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

Domingo, 26 de abril de 2020. Coletiva.net completa 21 anos. As comemorações também tiveram que ser adaptadas aos tempos de pandemia. Sem festa, bolo, beijos ou abraços. Mas não por isso menos especial, afinal, são 21 primaveras marcadas pelo pioneirismo e inovação. Daqui de Lisboa, onde a Coletiva já cravou bandeira, estreando, em 2017, suas coberturas internacionais, me junto a esse parabéns virtual e envio um "cheirinho de alecrim", como pediu Chico Buarque, autor de "Tanto Mar", cujos versos tomei de empréstimo. Não fosse o coronavírus, Chico teria estado em Lisboa durante as celebrações do 25 de Abril para receber o Prêmio Camões. Mas estava falando sobre o aniversário da Coletiva. Bem, o pedido da Patrícia Lapuente, coordenadora de Comunicação da Coletiva, para que escrevesse um artigo abriu minha "caixinha de memórias afetivas" relacionadas ao portal, onde fiz amigos e conheci tanta gente inspiradora que tive o prazer de perfilar. 

Todo jornalista é, por natureza, um sommelier de histórias. Contar a história destes contadores é um desafio imenso, e é isso que todas as semanas, sempre às sextas-feiras, a Coletiva faz. Para um foca, então, a tarefa pode ganhar contornos de uma missão herculeana. Era o que sentia em meados dos anos 2000, quando comecei a estagiar no portal, frente à incumbência de narrar as trajetórias de renomados repórteres, escritores, fotógrafos e outros tantos profissionais da área da comunicação. 

Foram necessários alguns meses até que, finalmente, me fosse confiada a missão de escrever um Perfil da Semana - certamente uma das seções mais lidas e prestigiadas do portal até hoje. Caco Barcellos e Eduardo Bueno, o Peninha, foram alguns dos nomes de gaúchos com projeção nacional que pude entrevistar. Mas nenhum outro perfil me marcou tanto quanto o do jornalista Hermínio D'Andrea, publicado em 2008. Na época, aos 83 anos, o ex-líder comunitário era responsável pelo jornal O Cacique, que circulava nas dependências do Asilo Padre Cacique, onde morava havia três anos. Além de apurar e bater as notas numa máquina de escrever, Hermínio distribuía a publicação impressa em folha A4 aos colegas do asilo. 

O Cacique já não circula mais. Foi a última, mas não a primeira publicação produzida por seu Hermínio. A paixão começou ainda na adolescência, quando lançou um informativo na escola. E não parou mais: também criou jornais para veicular as notícias do bairro e, mais tarde, da cidade onde vivia. Depois que o perfil saiu na Coletiva, o jornalista virou fonte. A história de seu Hermínio foi contada por diversas vezes nos últimos anos em reportagens veiculadas na TV, jornal, Internet... No último sábado, 25 de abril, o Forrest Gump do Asilo Padre Cacique completou 95 anos. Apesar da saúde mais debilitada, no ano retrasado, em entrevista à Zero Hora, disse que ainda pretendia retomar a publicação. Vindo dele, não é de se duvidar.

Em tempos de pandemia, de fake news e cerceamento à atividade jornalística, que corroem as estruturas da democracia, que possamos nos inspirar na história do seu Hermínio, da Coletiva e do 25 de Abril. Mais do que resistir é preciso persistir. E, claro, sem nunca deixar de sonhar - a liberdade que jamais poderá nos ser tomada. 

Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Em algum canto de jardim

Cleidi Pereira é a segunda a assinar a sequência de artigos comemorativos aos 21 anos de Coletiva.net. Jornalista, ela começou no portal como estagiária, tendo permanecido na empresa por quatro anos. Hoje, é correspondente do veículo em Portugal, sendo responsáveis por coberturas internacionais.

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