Competente, independente e livre

Por Tássia Jaeger

Se tem duas coisas que uma mulher deveria se preocupar em ser na vida, acima de tudo, ao meu ver, são elas: competente e independente. Mas por quê? Quando uma mulher é competente, ela consegue superar todos os obstáculos que a vida apresenta, mostra seu talento, conquista seu espaço e, portanto, ganha sua independência. E por que eu considero tão importante conquistar a independência? Porque quando uma mulher não depende financeiramente de ninguém, ela se torna livre. E livre, se livra de situações que não merece e não deve vivenciar. 

Uma mulher independente financeiramente, não precisa aceitar os abusos e agressões psicológicas e físicas de um marido ou namorado machista e violento, porque não tem como se sustentar sozinha. Uma mulher independente, não precisa dividir o apartamento com uma irmã chata, uma prima sem limites, uma amiga tóxica, uma colega folgada, ou qualquer pessoa cujo comportamento não combina com o seu, porque precisa dividir as contas. Uma mulher independente, não precisa morar com uma família controladora, que vigia seus passos, que julga cada ação ou atitude sua, ou com uma família folgada e desrespeitosa, ou bagunceira e barulhenta, ou caótica e problemática, porque morando em família não paga luz, internet, aluguel, condomínio. Uma mulher independente, se assim o quiser, também não precisa dividir a casa com o companheiro por melhor que ele seja; nem com uma irmã, prima, amiga, colega com quem ela se dê bem; ou com uma família amorosa. Pode não dividir simplesmente porque deseja ter seu espaço, sua liberdade. De forma geral, uma mulher independente não precisa aceitar quaisquer situações desgastantes que lhe tirem o sono, a paz e a felicidade, porque ela consegue pagar as próprias contas.

Claro que não sou ingênua a ponto de pensar que é apenas o dinheiro que conta na hora de decidir sair de situações que fazem mal ou anulam uma mulher. É preciso ter sua autoestima de volta, seu amor próprio acima do amor ao outro, e muitos outros fatores psicológicos. Mulheres com histórico de abuso e agressão tendem a se sentir merecedoras da situação que vivem. Creem que é a cruz que devem carregar, o carma, uma missão ou uma punição. Sair de uma situação como essa é muito mais difícil do que se imagina. 

Já evoluímos e estamos conseguindo falar e não calar diante de todos abusos que sofremos diariamente nas ruas, no trabalho. Mas muitas ainda carregam aquele silêncio de uma vida inteira por abusos e assédios que sofreram dentro de casa, do pai, irmão, tio, avô, amigo da família. Aquele silêncio em nome da paz familiar, da harmonia de fachada.

Por essas e outras reitero o quanto a independência é um passo importante. E talvez o primeiro passo que toda mulher, esteja ela sofrendo ou não, devesse dar. Quando você conquista sua independência, talvez não toda, mas parte da sua autoestima é recuperada. Você já não se sente uma mulher sem valor, utilidade. Você entende que é uma peça importante no seu trabalho, na sociedade. Com seu trabalho, você consegue ter sua casa e seu dinheiro para o essencial e o supérfluo. Para de aceitar continuar vivendo numa situação desgastante porque precisa do dinheiro e do teto de outra pessoa. Tem uma frase que gosto muito que diz: "você não pode se curar no ambiente que a adoeceu". Aí, quando você é dona de si, você para de pedir desculpas por algo que não é culpada, você não acha que mereceu ser xingada, agredida, você não aceita desrespeito calada, você não tolera falta de noção, você não permite que se intrometam em sua vida, você decide sua vida, você vive do seu jeito. 

Preciso ser realista e contar para você que, após conquistar sua independência, você precisa se dedicar ainda mais para mostrar que merece o espaço que conquistou. Infelizmente, ainda hoje você precisa fazer esforço dobrado para mostrar sua competência. Vai ser mais difícil do que seria para um homem que segue o mesmo caminho, mas vai valer a pena. Ou seja, você precisa ser foda! 

Seja foda para não ficar num emprego que explora, no qual você faz horas extras todos os dias, no qual você não é elogiada ou reconhecida como deveria, no qual seus dez acertos se anulam quando você comete um erro. Seja foda para não aceitar um chefe assediador e um colega tarado. Seja foda para sair de um lugar que adoece e ir para um emprego que merece.

É, gurias, é foda ser uma mulher foda. É preciso muita determinação e força de vontade para conquistar seu espaço e mantê-lo. E vai ser foda conquistar seu lugar ao sol e ter que conciliar com as tarefas domésticas, com os cuidados com os pais doentes, o filho pequeno, o cachorro, os problemas de família. E aí, quando você acha que não tem mais energia e disposição, você ainda quer ter um tempo para cuidar de si, para ir para academia ou qualquer outra atividade que te faça bem. 

Nesse ponto, vale ressaltar que apesar de toda luta feminista para mostrar o nosso valor além do corpo, ainda estamos aprisionadas na busca do padrão de beleza, mesmo que menos, se considerarmos alguns anos atrás. Mas não vamos mentir para nós mesmas. Ainda vivemos numa sociedade que idolatra mais bundas do que cabeças. Mais peitos do que corações. Mais músculos do que neurônios. Não basta ser inteligente, competente, independente, tem que saber rebolar como a Anitta e aprender todos os novos requebrados. Tem que manter a cintura fininha, a bunda empinada e a coxa grossa. Mas não desanime. Se mantenha fiel aos seus valores. E seja competente, independente e livre justamente para não se sujeitar a situações onde seu corpo seja o que conquista, o que apaixona, o que prende. E vá se cuidar, sim, se assim o desejar, mas porque te faz bem, porque é tua saúde, tua autoestima, teu bem-estar. Vá para a academia, para o salão, meditação ou simplesmente vá ler um bom livro ou caminhar ao ar livre. É o seu momento longe de todas as suas responsabilidades diárias.

Ser mulher é matar um leão por dia. Então, se fortaleça. Se ame. Se coloque em primeiro lugar. Se garanta. E não deixe que nada e nem ninguém faça o que você não faria a você mesma. Seja sua melhor amiga. Sua alma gêmea. Seja sua. Por isso, mulheres, estudem, trabalhem, lutem, conquistem seu espaço na empresa, em casa, na sociedade.

Tássia Jaeger é responsável pelo Endomarketing da Santa Casa de Misericórdia e editora do selo Tendências.

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