Em 2021, eventos sensoriais e intuitivos

Por Beatriz Moraes, para Coletiva.net

Ao pensar sobre o que representou a Covid-19, em 2020, para o setor de eventos, lembro da frase "o trágico não vem a conta-gotas", de Guimarães Rosa, no conto 'Desenredo'. O setor de eventos foi um dos que mais sofreu durante a pandemia, com cada empresa cancelando, em média, 12 contratos no ano, conforme pesquisa publicada pelo Sebrae.

Agora, devemos olhar para 2021. "O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia". Outra frase de Guimarães Rosa, do clássico 'Grande sertão: veredas', que encaixa bem neste momento.

Naturalmente, é difícil planejar em tempo de insegurança, num compasso de espera pelos resultados da vacina. No entanto, é o que nos resta fazer. Não podemos ficar esperando que tudo volte ao velho normal, como antes da pandemia. Ameaçadas pelo vírus, as pessoas ficaram em casa, mudaram os hábitos, os relacionamentos, a forma de trabalhar.

O setor de eventos tem que se adaptar a essa nova realidade, convivendo com o vírus por um tempo ainda indeterminado. A alternativa híbrida já vem sendo testada, um pouco virtual, parte presencial, com uma série de protocolos.

Muitos eventos já foram feitos de forma híbrida em 2020, mas em 2021 teremos que ser ainda mais criativos com as telas, espaços, palcos, dinâmica, interação e atração do público. Quem não criar formatos inovadores corre o risco de conviver com olhares passivos, distanciamento entre tela e um público de meros receptores.

A hora é de sair da casinha. Um dos possíveis caminhos nesta travessia é seguir alguns aspectos do teatro popular. E um bom exemplo, neste momento de incertezas, é o teatro do inquieto ator, diretor, poeta e teórico francês Antonin Artaud (1896-1948). Para ele, o teatro deveria abalar as certezas adotadas pela sociedade.

Artaud rejeita as características do teatro tradicional. O público não deveria se posicionar de frente para o espetáculo, mas arrastado para o círculo da ação, proporcionando uma energia coletiva. Ele propôs uma interação entre o palco e o público e entre atores e espectadores. A encenação ocupa todo o espaço. 

Transportando essa ideia para os eventos, devemos criar uma energia coletiva, mesmo com o atual distanciamento, entre palco, telas e público. O desafio é como será essa metamorfose, reintegrando o presencial com o digital, o físico e o espiritual, neste momento de angústia, seguindo todos os protocolos.

Ser somente híbrido não vai resolver. A criação de um evento terá que ir do sensorial ao intuitivo nesses novos tempos. Em 2021, a criatividade vai fazer ainda mais a diferença nos eventos.

Beatriz Moraes é sócia-diretora da Storia Eventos.

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