Que toque o clarim!

Por Christian Müller Jung, para Coletiva.net

Christian Jung - Divulgação

"Vence duas vezes quem vence a si mesmo." - Socrates Nolasco, psicólogo.

Talvez tenha sido por esse princípio que o estado do Rio Grande do Sul esteja prestes a vivenciar um momento inédito no cenário político. Penso assim, ao relacionar a frase do psicólogo e autor do livro 'O Mito da Masculinidade' à declaração do governador Eduardo Leite, no programa 'Conversa com Bial', em julho de 2021, época em que pretendia disputar as prévias do PSDB para concorrer a presidente da República.

Para relembrar:

"Nesse Brasil, com pouca integridade nesse momento, a gente precisa debater o que se é, para que se fique claro e não se tenha nada a esconder. Eu sou gay, eu sou gay. E sou um governador gay, não sou um gay governador, tanto quanto Obama, nos Estados Unidos, não foi um negro presidente, foi um presidente negro. E tenho orgulho disso. Não trouxe esse assunto, mas nunca neguei ser quem eu sou. Nunca criei um personagem, eu não tentei fazer as pessoas acreditarem em algo diferente. E tenho orgulho justamente dessa integridade."

Liberdade! Essa é a condição daquele que não se acha submetido a qualquer força constrangedora, física ou moral! Se livrar das amarras preconceituosas e  vergonhosas, em um estado considerado dos mais machistas do Brasil, não é tarefa fácil. Imagine, abrir o peito e se jogar nessa "fritadeira" que é a opinião pública. É preciso estar íntegro e emocionalmente equilibrado para tomar uma decisão como essa. Foi esse, no meu entender, um dos primeiros alicerces que Eduardo Leite plantou na sociedade gaúcha. Não permitindo que o que é privado se sobrepusesse ao que é público. 

Não obstante a essa situação, Leite se apresentou um líder pronto e capacitado para enfrentar as dificuldades financeiras e sociais de um estado que estava desequilibrado. Respondeu aos desafios de cada pasta de governo, foi transparente ao fornecer os dados e números ao cidadão, e firme nas atitudes que teve de tomar - muitas, é verdade, que desagradaram fatia da sociedade gaúcha. E isso, sabemos, faz parte do jogo que ele se propôs a jogar!

Evidentemente - que fique claro a você que me lê -, este relato se faz a partir do meu ponto de vista, construído pela função que exerço de funcionário público, que assiste, de forma privilegiada, aos bastidores do ir e vir de governadores, que se sucedem a cada quatro anos, em um estado que nunca, até então, havia reeleito o chefe do Executivo.

Dentro dessa construção de ideias e de atitudes personificadas de alguém que se apresenta como um líder, teremos um momento inédito de reeleição no solo gaúcho, em primeiro de Janeiro de 2023. No papel de cerimonialista - sou mestre de cerimônia do Palácio do Piratini, desde 1999 - e na companhia de uma competente equipe de profissionais, conduziremos uma solenidade de transmissão de cargo que se diferenciará de todas as anteriores que já vivenciamos.

Será uma festa plena - quem já leu textos anteriores nos quais relato as diversas e opostas emoções que são sentidas quando assistimos à chegada e à saída de um Governador (que se dão na mesma solenidade) entenderá essa minha afirmação. Desta vez, reforço, temos tudo para que seja um momento festivo, ainda que a carga de responsabilidade seja enorme para quem se mantiver à frente do Executivo. Os problemas e os desafios vão se impor. É inevitável. Oxalá não enfrentemos uma nova pandemia ou coisa do tipo!

Momentos como o fim da primeira etapa da solenidade de transmissão de cargo de governador, quando da condução do ex-governador até a porta de saída do Palácio, ato formal e triste para muitos que assistem à cerimônia, provavelmente não ocorrerão. O misto de emoções, com a alegria de quem entra e a tristeza de quem deixa o poder, não presenciaremos. Ranolfo Vieira Júnior, atual governador, era vice de Eduardo Leite até março de 2022, quando este se afastou do cargo para concorrer às eleições deste ano. Será um aperto de mãos de amigos. De políticos que desenharam uma caminhada que, provavelmente, tenha ido muito além dos sonhos que sonharam, em 2019.

O Toque da Vitória pelo Clarim da Brigada Militar, que repercutirá no Salão Negrinho do Pastoreio, do Palácio do Piratini, não virá acompanhado de ressentimentos. Pelo contrário. O timbre claro e estridente desse instrumento soará como a frase de Airton Senna:

"Eu sou parte de uma equipe. Então, quando venço, não sou eu apenas quem vence. De certa forma termino o trabalho de um grupo enorme de pessoas!"

No caso da solenidade do dia primeiro de janeiro, um trabalho que encerrará apenas uma primeira etapa, porque é só mais uma parte de um bonito recomeço! O recomeço de quem quebrou paradigmas e entrará para a história como o primeiro governador reeleito no Rio Grande Sul.

Que toque o clarim! 

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias.

 

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