Sobre aprender com os erros dos outros

Por Geórgia Santos, para Coletiva.net

Crédito: Reprodução

Não tem sido exatamente fácil ser jornalista no Brasil. Não que tenhamos vivido na Ilha da Fantasia nas últimas décadas, mas não tem sido fácil. Um monitoramento realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostra que, já no primeiro mês de 2021, os ataques à imprensa mais do que dobraram quando comparados a janeiro do ano passado. E não surpreende que o presidente Jair Bolsonaro tenha sido o responsável por onze das 22 ofensas que partiram de agentes públicos. O famigerado ano de 2020 já havia sido marcado por toda a sorte de hostilidades contra a imprensa, mas esse levantamento da Abraji indica uma piora considerável no cenário com o registro de 26 ataques em 31 dias. No país de Bolsonaro, todo jornalista independente é persona non grata. Temos sido criticados, perseguidos e até agredidos. E isso faz com que seja muito difícil refletir sobre os erros que efetivamente cometemos - e cometemos. 

Por isso, talvez seja uma boa ideia começar a aprender com os erros dos outros.

Nos Estados Unidos, a organização sem fins lucrativos First Draft publicou um estudo realizado pela pesquisadora Claire Wardle (com a contribuição de Rory Smith, Roger McDonald e Kalev Leetaru) intitulado The role of cable television news in amplifying Trump's tweets about election integrity, que em tradução livre seria algo como "O papel dos telejornais de TV a cabo em amplificar os tuítes de Trump sobre a integridade da eleição". Como todos sabemos, Donald Trump era um tuiteiro inveterado até ter sua conta suspensa em janeiro. Consequentemente, o que ele escrevia nas redes sociais começou a pautar a mídia tradicional norte-americana. E como a audiência parecia responder positivamente ao que Wardle chamou de "fluxo de consciência quase diário" do ex-presidente, estabeleceu-se uma relação de reforço mútuo. E a ideia por trás da pesquisa era justamente compreender essa relação de retroalimentação entre o que Trump escrevia no Twitter e a repercussão dada pela mídia tradicional.

Wardle examinou a cobertura dos canais CNN, MSNBC e Fox News durante o último ano de mandato de Trump, dando atenção especial ao período em que pipocaram alegações mentirosas sobre a integridade da eleição dos Estados Unidos na conta oficial do então presidente. E a pesquisa aponta para quatro características que definem a relação entre essas três emissoras de televisão e os tuítes de Donald Trump: 1) As emissoras reforçam as afirmações de Trump de que a eleição seria fraudulenta; 2) A cobertura focou nas alegações de fraude com maior intensidade depois das eleições; 3) Tuítes que foram marcados como potencialmente falsos receberam mais atenção da mídia; 4) A contextualização de tuítes falsos não aparecia na tela. No total, os três canais juntos dedicaram 259 minutos aos tuítes de Donald Trump sobre a mentirosa fraude nas urnas.

Simplesmente avaliar a quantidade de tempo dedicado ao tema não é suficiente para tirar grandes conclusões, segundo Wardle. Ela entende que é preciso compreender como os canais usaram esses tuítes para moldar a cobertura; se checaram as informações ao vivo e verbalmente; se contextualizaram as alegações falsas; se sugeriram fontes adicionais aos telespectadores e por aí vai. Mas a questão principal que fica é se, sem esses tuítes, as emissoras teriam dedicado tanto tempo ao delírio de um perdedor. A mídia, afinal, amplificou uma narrativa mentirosa.

Mas o que isso tem a ver com os nossos erros? Bem, eu não conduzi uma pesquisa similar à publicada pela First Draft, mas todos podemos concordar que o modus operandi de Bolsonaro é bastante similar ao de Trump no que se refere ao uso de redes sociais - que se tornaram os canais oficiais do governo - e que a forma de reação da mídia tradicional brasileira é bastante similar a dos canais pesquisados por Wardle. E o chamado "jornalismo declaratório" está aí para oferecer uma evidência empírica.

Os exemplos são diários. Em nove de fevereiro, por exemplo, o UOL publicou uma reportagem com a manchete "Nunca fui contra a vacina", afirma Bolsonaro sobre pandemia da Covid-19". O portal publicou a matéria no Twitter, com esse título, mesmo depois de o presidente da república afirmar em inúmeras ocasiões que a vacina era ineficaz ou perigosa ou que transformaria as pessoas em jacaré. Sim, estamos machucados e cansados e é difícil fazer autocrítica quando se é agredido cotidianamente, mas precisamos e podemos ter cuidado sobre a forma como repercutimos declarações sabidamente mentirosas. O Estado de Minas, por exemplo, puxando a fila e avançando uma casa, mostrou que é possível. O assunto era o mesmo da matéria do Uol, mas a manchete foi outra: "Nunca fui contra a vacina'', diz Bolsonaro. É mentira".

O estudo publicado pela First Draft suscitou muitas perguntas - como toda a boa pesquisa - e está longe de ser definitivo, mas aponta para uma direção importante.  Mostra que é fundamental que avaliemos com cuidado a maneira como reproduzimos as narrativas de quem não tem compromisso com a verdade. Que possamos, então, aprender com os erros dos outros e não dar coro à desinformação. 

Geórgia Santos, jornalista e editora-executiva do Vós.

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