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A Dama de Ferro que passava camisas

Por Daniela Fragomeni, para Coletiva.net

O primeiro encontro formal entre a rainha Elizabeth (Olivia Colman) e a primeira-ministra do Reino Unido, Margareth Thatcher (Gillian Anderson), pode parecer perturbador na perspectiva da mulher de hoje. É possível conferir a cena no primeiro episódio da (tão aguardada) quarta temporada da série The Crown (original da Netflix), que parece ter tido justamente esta intenção, incomodar. Para dar o mínimo de spoiler, no soberano encontro, a primeira-ministra faz questão de dizer que seu governo não contará com mulheres porque são muito sensíveis e que seus assuntos pessoais não interferirão em seu trabalho. Entretanto, em um flash de cenas, ela aparece passando a camisa de seu marido, Sir Denis Thatcher. 

Na história da mulher na sociedade, sua ascensão profissional e a tomada de uma consciência feminista data de um curto período da contemporaneidade, sendo os primeiros movimentos identificados nas décadas de 1960 e 1970. De forma inédita e de fato, Margareth ocupou o cargo público mais importante do Reino Unido, entre os anos de 1979 e 1990 e foi odiada por muitas pessoas. Por outro lado, esta mulher teve que superar os homens em todos os aspectos para assumir uma liderança em seu meio. Só poderia ter sido mesmo forjada a ferro, porque nada mais poderia explicar sua ascensão, naqueles tempos (ou até mesmo nos dias atuais). 

A conquista feminina do mercado de trabalho é um grande feito. A mulher adaptou-se a cumprir de forma espetacular as tarefas profissionais que antes eram creditadas apenas aos homens e que, se somadas às obrigações da esfera pessoal, se tornaram um grande e angustiante peso físico e mental. E elas deram (e dão) conta de tudo, sempre. Entretanto, está mais do que na hora de militar por mais um importante passo na igualde de gênero, uma divisão justa do universo privado. Da mesma forma que a mulher conseguiu cavar seus espaços no mercado de trabalho, os homens devem conquistar seus lugares nas tarefas relacionados à família e seu bem-estar.  

Cada um com suas aptidões, devem construir um ambiente privado igualitário que leve em conta as horas trabalhadas fora e o tempo dedicado à família. Quem está seguindo por este caminho não se arrepende. São homens experimentando o contato próximo com seus filhos, lançando-se à cozinha, organizando a rotina dos filhos. Por outro lado, mulheres mais livres para exercerem suas aptidões em novos campos, com uma carga mental reduzida. Quem sabe, fosse nos dias de hoje, Margareth e Denis estariam mais alinhados, e a Dama de Ferro não teria a necessidade de ser tão dura. 

 

Daniela Fragomeni é jornalista e relações públicas, executiva de contas na CDN Sul.

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