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A excessiva informalidade do digital

Por Balala Campos, para Coletiva.net

O escritor J. D. Sallinger disse: “Publicar é uma terrível invasão de minha privacidade”, referindo-se, é claro, aos livros de sua autoria. Imaginem se o grande escritor americano pudesse aterrissar no planeta em meio a esta profusão de selfies, lives e vídeos, que inundam nosso cotidiano. Veria que publicar, independentemente do conteúdo, tornou-se um grande valor. Todo mundo quer falar de si, independentemente do conteúdo. Na melhor das hipóteses, saem do seu egocentrismo e falam para os possíveis, e de preferência, milhares de seguidores. 

É inegável que o mundo digital foi de vital importância para todas as atividades durante a pandemia. Salvou-nos do isolamento social total, possibilitando com que tivéssemos acesso a cursos, palestras, entretenimento, jornalismo, etc. Nos permitiu interagir, ainda que  através das telinhas.

Mas toda a pompa e circunstância que usávamos para falar em público foram por terra. Falas proibidas vieram à tona, membros circunspectos do Judiciário apareceram de cuecas, apresentadoras de TV foram vistas de cabelos mal cuidados. Súbitas interrupções do som, imagens indecisas e diáfanas foram uma constante nos vídeos e lives que apareceram aos milhares durante a pandemia. O simples acionar ou o não acionar de uma tecla estão sendo capazes de ocasionar imagens indevidas e falas que jamais deveriam ser expostas. Ficou claro que a  toda poderosa tecnologia também falha. E isto sem contar a insegurança da maioria dos adultos em lidar com as novas ferramentas, o que determina desastres ainda maiores. Cachorrinhos latindo e crianças gritando em meio a palestras importantes tem sido uma constante.  

Aqueles que terminaram seu vídeo e não o desligaram a tempo têm revelado, involuntariamente, coisas incontáveis. Ficam com drásticas consequências para sua imagem. O que não podia ser mostrado, neste momento, de certa forma, foge ao nosso controle.

Não bastasse o uso indevido de nossos dados pessoais, que hoje são de propriedade das grandes empresas de tecnologia digital, as quais obtém ganhos milionários com o repasse dos mesmos, temos ainda a terrível invasão da publicidade que salta aos olhos e atrapalha nossa leitura, quando queremos obter conteúdos. E se não apertarmos uma pequena tecla ficamos submetidos a estes indesejáveis e intrometidos invasores.

Hoje perdemos a privacidade e a compostura, como diriam os mais antigos. Será que ela tem volta?

 

Balala Campos é jornalista e diretora da Balala Campos Assessoria em Comunicação.

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