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A pior companhia de todas

Por Rafael Codonho, para Coletiva.net

“A maior forma de solidão é a companhia de um paulista”, definiu o imbatível Nelson Rodrigues, dono de um dos melhores textos da literatura brasileira. Concordo com ele, com a propriedade de quem nasceu na terra da garoa. Porém, se o escritor vivesse em 2020, certamente colocaria os paulistas em segundo lugar na fila. Hoje, somos a pior companhia de nós mesmos: adquirimos uma verdadeira repulsa ao silêncio, à solidão, à contemplação.

Se fosse diferente, teríamos essa mania doentia de acordar e, logo em seguida, olhar o celular? E ficar ansiosos ao sair de casa com a bateria marcando apenas 3%? E sentir como se um desastre estivesse prestes a ocorrer ao deixar o celular em casa para  correr na rua? Ou, entre um corte e outro no bife, ter a obrigação de dar uma olhadinha se algum e-mail importante chegou? Falemos a verdade: não conseguimos desconectar das telas até mesmo quando estamos na companhia de um amigo que não encontramos há tempos. A sensação é de plantão permanente. Ora, é evidente: há algo de profundamente irracional — até dantesco — em todas essas manifestações do nosso dia a dia. 

Preocupar-se com a vida digital somente em razão do mau uso das nossas informações, despertados pela Lei Geral de Proteção de Dados, é sinal de que entendemos pouco ou quase nada da situação. Da mesma forma, a reação universal de choque ao teor do documentário “O dilema das redes”. A produção da Netflix deixa um legado à sociedade ao expor a alta dose de perversidade dos mecanismos das redes sociais, expostos justamente pela boca de seus criadores. No entanto, em sua conclusão, exibe uma colcha de clichês, apontando a regulação estatal como o caminho para salvação das almas. Tudo isso num ambiente formado por trilhas sombrias e depoimentos messiânicos, unidos para comover a audiência. O que pretendia estimular uma rica reflexão se perde na superficialidade. 

A verdade é que o problema é muito mais profundo — até mesmo transcendental. Devemos, sim, ter precaução com nossos dados e com as seduções dos canais digitais, que nos prendem como teias de aranha. Porém, ainda mais com o efeito nas nossas consciências e na vida que estamos levando. É realmente saudável ou razoável sermos bombardeados por demandas no WhatsApp do dia até a noite, impossibilitando um trabalho minimamente linear, que privilegie as prioridades sem interrupções? O relevante se mistura ao desprezível, sob o mesmo aspecto de urgência. A concentração, historicamente essencial para a produção das grandes obras, se torna praticamente impossível. Isso sem contar os prejuízos que essa conexão ininterrupta causa à vida familiar: muitas vezes, estamos presentes, mas apenas corporalmente. A mente está a quilômetros de distância. Do mesmo modo, é desafiador contemplar uma bela paisagem por si só – sem querer, minutos depois, transformá-la em stories. E o que dizer, então, do esporte olímpico que se tornou a oração, em meio a tantos elementos externos concorrendo pela nossa atenção? 

Tente, por exemplo, ler um livro sem cair na tentação recorrente de conferir o feed, entre uma página e outra. Com tanto barulho no nosso entorno, a distração vem vindo aos poucos e toma lugar. No fundo, está em curso a perda do controle do nosso dia a dia e do rumo das nossas vidas. É como se fôssemos lançados numa forte corrente, gerada pelos estímulos que recebemos o tempo todo. Mas o problema, de verdade, está na forma como reagimos a eles. Somos como esponjas, absorvendo a tudo. Negligenciamos a formação dos bons hábitos. Não há espaço para vitimização: essa realidade é resultado das nossas próprias escolhas. Aonde vamos chegar com isso?

Um pouco do retrato do futuro pode ser antecipado ao observarmos os tais nativos digitais. Confesso que a experiência é um pouco deprimente para mim. Embora sejam criativos, ágeis e dinâmicos, boa parte deles parece estar inserida numa bolha e alheia à experiência real e ao mundo prático. Costumam ser ótimos em tarefas rápidas, mas se perdem quando o exercício pede imersão e profundidade. Na escala de valores, o prazer imediato se sobrepõe à construção de longo prazo. A noção de sacrifício é inexistente. Seu emprego gera felicidade? Siga em frente. Está difícil? Então, não é para você. É hora de mudar, rumo a um “novo desafio”. 

Essa nova visão de mundo — que despreza virtudes como fortaleza e temperança — ajuda a explicar o turnover endêmico nas organizações. Nada preenche, nada satisfaz. É mais importante “aceitar-se” do que melhorar como pessoa ou profissional. Dane-se o processo árduo que é a formação do caráter. O TikTok é a representação perfeita da nossa época: crianças de idade adulta fazendo estripulias para chamar atenção dos amiguinhos, em cenas absolutamente ridículas e incompatíveis à maturidade esperada por seu estágio de vida. Que tempos!

Nunca a humanidade esteve tão exausta e, ao mesmo tempo, tão entediada. Essa conexão contínua nos faz menos humanos. Tantas horas gastas no ambiente digital geram um sentimento de profundo vazio, em que grandes expectativas dão lugar a frustrações da mesma dimensão. Seria esse um caminho sem volta? Não acredito. Em determinado momento da história, as pessoas precisarão se dar conta de que a continuidade do atual cenário levará à autodestruição. 

No livro “O poder do silêncio: contra a ditadura do barulho”, o cardeal Robert Sarah é preciso no diagnóstico: “Sem barulho, o homem pós-moderno cai num aborrecida e insistente inquietação. Ele está acostumado ao barulho de fundo permanente, que o adoece, mas o tranquiliza. Sem barulho, o homem fica febril, perdido. O barulho lhe dá segurança, como uma droga da qual ele se torna dependente”. Mais adiante, propõe um caminho: “O silêncio da vida cotidiana é condição indispensável para viver com os outros. Sem a capacidade de silêncio, o homem é incapaz de ouvir, amar e entender as pessoas ao seu redor”. Há quase cinco séculos, o matemático francês Blaise Pascal já concordava com o arcebispo guineense: “Toda a tristeza dos homens vem de um único fato: eles não conseguem ficar quietos em seus próprios quartos”. 

Há poucos dias, estive em um retiro: durante um fim de semana, ignorei totalmente as notificações do celular e fiquei à deriva das notícias do mundo. Querem saber? Não perdi nada. Pude me conectar com o bom, o belo e o verdadeiro. Sem barulhos, sem distrações, sem disputa pela minha atenção, com foco tão-somente no essencial. A ansiedade se transfigurou em serenidade, como reflexo do discernimento que brotou. É possível, a partir das nossas decisões, ir contra a corrente. Uma relação diferente com o universo digital deve ser buscada se realmente queremos alcançar a felicidade. 

 

Rafael Codonho é jornalista e sócio-diretor da Critério – Resultado em Opinião Pública.

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