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A vida do novo mundo

Por Thiago Zahreddine, para Coletiva.net

Eu seguidamente me belisco. É para ter certeza de que não estou vivendo dentro de um pesadelo – ou em um daqueles episódios da série Black Mirror. Um vírus invisível mata na velocidade em que se espalha; o esgotamento econômico deixa vazia a geladeira; sorrisos são encobertos por um retalho de pano; enclausurado, o mundo inteiro vê pela janela sua liberdade suprimida pelo medo. Enquanto isso, a humanidade reaprende a viver pela solidariedade e pelo intangível da fé.

Vivemos uma provação social. E temos aprendido com ela, no transcurso da guerra. Num piscar de olhos, a sociedade está em mutação. O que era para ocorrer em anos acaba pegando o atalho de semanas. Com a pandemia, tivemos de nos adequar a uma nova realidade – muito mais virtual e digital. Tudo isso já estava a nosso alcance, mas não fazíamos por comodismo ou mero preconceito.

Se antes aula em EAD era um modelo possível, agora é a única alternativa para aprender. Se, no passado, as reuniões virtuais eram consideradas ineficazes para tomada de importantes decisões, hoje é um jeito novo que se provou efetivo. Até ontem, comprar e vender pela internet era tendência – e eis que, para não deixar sucumbir a economia, esse é o modelo obrigatório. As redes sociais, cujo consumo aumentaram em 40% no mundo todo, até então vista por muitos como uma purpurina contemporânea, virou remédio contra a solidão e o tédio.

Aliás: nesses tempos, o que é supérfluo e o que é necessário? Ora, aquilo que a maioria julgava dispensável tornou-se absolutamente necessário. Os dias sem música seriam tristes demais: shows pela internet aliviaram a clausura. A literatura, para muitos, revelou-se a melhor companhia. O consumo pelo audiovisual em streaming cresceu 20% – o Netflix ganhou 16 milhões de usuários. A cultura no meio do caos tornou-se um recurso de saúde mental na opressão da pandemia.

Parece até uma piada de mau gosto falar em paciência enquanto a morte faz um arrastão. Enquanto escrevo, o país registra mais de 44 mil mortos. Entendamos, portanto, que é difícil tomar decisões absolutas e sem margem de erro. Lidar com uma praga tão letal não foi matéria de escola. Não há solução fácil para algo tão complexo. Como se caminha no escuro? É tateando, e não correndo. Empatia, senhores. É difícil ser empresário e é difícil ser empregado. É difícil ser governante. E, sim, também é muito difícil ser cidadão.

Há muitos brasis dentro do nosso Brasil. Há quem consiga honrar a hashtag #FiqueEmCasa, mas há quem precise estar na rua para encher a barriga dos filhos. O empreendedor quer abrir o negócio, os governadores mandam fechar. A União quer a cloroquina como tratamento à peste, enquanto a medicina ainda é cética quanto à sua efetividade. Muitos políticos são sérios, outros tornaram-se oportunistas de carteirinha. A sociedade, zonza em meio ao caos, está de frente para bifurcação do trilho, sem saber para onde seguir. E nesse esgarçamento do tecido social vivemos todos. Repito: a humanidade está em mutação.

A pergunta agora é como será o mundo após a crise do COVID-19. A vida amanhã ainda é incerta porque sequer aprendemos a interpretar o que hoje a realidade nos ensina. A dicotomia falsa de economia versus saúde é uma verborragia simplista, discurso fácil, pura miopia social. Entendamos que a saúde está para vida na mesma dimensão que a vida está para economia. São dinâmicas indissociáveis e, necessariamente, precisamos olhar para o problema e fazer escolhas menos piores diante do que temos à mão. E, por óbvio, salvar a maioria.

Revisamos o sentido da existência humana na pandemia. E mudamos todos. Mudamos na jornada de consumo, mudamos na conexão familiar, mudamos na percepção sobre a interferência da cultura na vida. Mudamos a visão sobre a tecnologia, intercedemos a Deus por medo, tiramos o pó do espírito público e altruísta. E é desse jeito, calejados, sangrando, mas humanamente maiores, que vamos voltar à luz.

De tudo isso, um aprendizado que será para sempre a bússola: só a unidade salva.

Thiago Zahreddine é repórter da Record TV RS.

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