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Bolsonaro antes do CQC

Por Rodrigo Ramos, para Coletiva.net

Reza a cartilha de muitos dos “eventos culturais” Tropa de Elite e CQC (Custe o Que Custar) são causadores ou, no mínimo, propagadores de uma guinada conservadora e, em especial, do surgimento do bolsonarismo. Pois essa história é do primeiro semestre de 2007, o semestre anterior ao lançamento do filme baseado no livro da Luiz Eduardo Soares e quase um ano antes do surgimento do programa humorístico/infotenimento (?).

Fui chamado a produzir um programa de variedades na Rádio Guaíba, na qual atuava na produção do esporte havia três anos. Quem me convidou foi o apresentador e idealizador do programa, Sérgio Couto, nossas afinidades – em que pese alguns desentendimentos normais de uma relação repórter e produtor – nos trouxeram até ali.

O Programa das Sete era dividido em três blocos. O principal e mais longo tinha uma entrevista. Ouvimos gente de todas as áreas. Da voz imortal de Mercedes Sosa ao ainda perspicaz Chico Anysio. Entre os entrevistados estavam vários políticos e pessoas que gravitavam por esse meio, como foi o caso de MV Bill, parceiro de Soares e Celso Athayde, no livro Cabeça de Porco e no projeto Falcão – Meninos do Tráfico.

A figura pública menos à esquerda que tínhamos ouvido até o momento que contarei a seguir fora a juíza fluminense Denise Frossard, então deputada pelo PPS. Mesmo assim considerada uma magistrada progressista naquele momento. Não era apenas vontade nossa ou gosto pessoal para que tivéssemos ouvido quase todos os quadros relevantes de esquerda do momento. Poucas eram as figuras da política partidária que diziam abertamente serem de direita ou conservadoras. Mesmo os liberais eram raridade.

Aqueles que abriam bandeira tinham o hábito de não gostar de aparecer. Acredito que a lógica fosse “o de hoje tá pago” e torcemos por melhor sorte nos próximos pleitos. Até que chega o dia em que um colega produtor e indaga: porque vocês só entrevistam o pessoal da esquerda? Ao que eu respondi em postura que era misto de defesa e desafio: me diz um cara bom de direita que queira falar?

“Tem um militar. O Bolsonaro. Ele é bom. Ele fala. E fala bem”, obviamente eu não lembrava do Bolsonaro, aquela não era época de viralizar na internet xingando colegas. Então, mesmo o caso com a deputada gaúcha Maria do Rosário (PT), estava perdido na minha memória e na de tantas outras pessoas. Claro que bastou uma página de resultados do Google para eu ver o que nos esperava. Mas “missão dada é missão cumprida!”, não é mesmo?

Não quis demonstrar má vontade e resolvi dedicar meus minutos de paciência para contatar o parlamentar com anos de Congresso e notoriedade para um nicho de pessoas. Conseguir a entrevista foi tão fácil, mas tão fácil que beira a mitologia do rádio. Acessei o site da Câmara, anotei o número do gabinete do atual presidente, liguei e a primeira pessoa que me atendeu, uma mulher, agendou a entrevista e ficou tudo acertado. Nunca tive tanta facilidade em falar com um político.

Menos de uma semana depois lá estava Jair Bolsonaro falando o que ele fala até hoje. O que me impressionou foi a repercussão. Naqueles tempos uma boa medida para sabermos se um programa estava com boa audiência eram os telefones reservados aos produtores, próximos à central técnica da rádio. Em que pese a atração fosse muito elogiada internamente. Eles raramente tocavam.

Pois quando Bolsonaro falou houve um sobressalto, especialmente pessoas que denotavam na voz ter mais de 40 anos, ligando emocionadas e dizendo que aquele tipo de político era a salvação do País. Para não dizer que se tratava de uma questão geracional, mais ou menos naquela época começava a ouvir de pessoas que regulam de idade comigo dizerem-se de direita, que tinham valores conservadores.

Ou seja, jovens abaixo dos 25 anos que, no máximo, tinham vivido os exageros dos anos 90. Não souberam o que foi viver na ditadura e por acharem que não havia nada errado com aquilo víamos, líamos ou ouvíamos na década anterior achavam – alguns ainda acham – que o mundo ficou chato demais.

Obviamente, essa confluência de coisas resultou no que vivemos agora. Ao contrário do que muitos podem pensar, a onda que vige atualmente não é obra de uma eleição, de um impedimento, das manifestações de 2013. Era um grito, com o qual não faço coro, que estava há um bom tempo preso. Esses tempos pós-modernos não necessariamente de “gente fina, elegante e sincera”.

Rodrigo Ramos é comunicador e escritor, com mais de uma década de atuação no rádio esportivo.

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