É em meio às mentiras que o jornalismo se faz mais necessário

Por Luiz Artur Ferraretto, para Coletiva.net

Está em qualquer dicionário. Mentir é afirmar alguma coisa que quem afirma sabe ser contrária à verdade. Ao praticar tal ato, o sujeito torna-se um mentiroso, aquele que engana, aquele que finge ser o que não é. A mentira conforma-se, assim, como a antítese da notícia, embora nenhum jornalista vá considerar a narrativa de um fato como 'a' verdade absoluta. É quanto muito 'uma' verdade e, portanto, passível sempre de contestação. Trata-se de algo óbvio em sociedades democráticas. Infelizmente, não é o caso do Brasil, onde, cada vez mais, a verdade de uns - ao centro, à direita ou à esquerda - quer se impor sobre a dos demais.

Curiosamente, nesse processo, abundam adjetivos depreciativos, algo típico do senso comum. Constrói-se o jornalismo, no entanto, com substantivos e verbos. Narra-se. Descreve-se. Até mesmo a opinião, quando expressa dentro do Código de Ética profissional deve fugir dos adjetivos. A profissão exige dúvida constante em relação a tudo e a todos. Encontra-se nesse simples ato o que faz do jornalista alguém essencial em uma democracia. Não ter certeza nem acreditar piamente afastam o verdadeiro profissional do crédulo, que crê em tudo, ou do militante de ocasião, que, segundo interesses momentâneos, só aceita suas próprias crenças.

Nos últimos dois ou três anos, crédulos e militantes de ocasião infestaram redes sociais com suas informações inverídicas e distorcidas. Não argumentam. Gritam. Não narram ou descrevem. Impõem visões. Não questionam. Já são uma resposta pronta. Criou-se até uma expressão para definir esse tipo de conteúdo, ela por si só também uma mentira. Afinal, se algo é 'fake' jamais poderá ser 'news'. O problema de quem aceita essas 'fake news' concentra-se na falta de reflexão sobre o que lhe é transmitido. É uma consequência com várias causas.

No centro do processo, está a desconstrução do ensino brasileiro ao longo da ditadura imposta em 1964, problema que não foi totalmente resolvido na redemocratização. Conforme o Instituto Paulo Montenegro, ligado à Kantar Ibope Media, três de cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, possuem extrema dificuldade para ler e escrever, além de não conseguirem fazer operações matemáticas básicas.

A falência do sistema educacional brasileiro pode ser atestada pela presença de 34% de pessoas nessa categoria nas séries finais do ensino fundamental, percentual que cai para 13% no ensino médio e para 4% no superior. Em outras palavras, são pessoas que leem sem compreender o que está escrito. Um terço da população pode parecer pouco para tanto efeito daninho. Por óbvio, o problema não se restringe apenas a elas. Cabe observar que o Brasil não tem tradição em termos de consumo massivo de livros, jornais e outras publicações. Pelo visto nas postagens de fúria das redes sociais, há, inclusive, desdém em relação ao conhecimento.

Nesse contexto, sendo usado como canal para difusão de 'fakes', o WhatsApp do Brasil da década de 2010 tende a ter papel tão nocivo quanto o rádio e o cinema da Alemanha hitlerista ou da União Soviética stalinista, instrumentos máximos de propaganda naquelas duas ditaduras de teor assassino, em termos de oposição, e escravizador, no que se relaciona com as consciências. O esquema, em geral, é simples. Falseia-se a realidade para fabricar uma informação que serve de válvula de escape raivosa para quem a lê. Imagens são manipuladas e relacionadas a textos curtos com alto grau de agressividade ou deboche.

Dos grupos de Whats, o conteúdo flui para o Facebook ou o Twitter. Cada 'fake', sem conferência alguma sobre a veracidade da mensagem, passa a ser postado e repostado com a intenção de gerar visualizações e, em especial, reações. Essas últimas são respondidas agressivamente - inclusive, com ofensas - e sempre desviando da argumentação de quem lhe é contrário. No caso de a postagem não gerar o impacto desejado, militantes compartilham, como comentário, esses conteúdos, escolhendo a dedo perfis de pessoas com maior protagonismo do que o seu.

Como 'fonte', usam sites de boatos, criados especialmente para esse fim. Graças às estruturas publicitárias da própria internet, os mentirosos contumazes caçam cliques para gerar receita, produzindo sempre impacto, mas nunca notícias. A mentira não se resume à política, mas é nesse campo que os seus efeitos são evidentemente mais nefastos. Há obviamente conteúdos 'fake' originados à direita, ao centro e à esquerda, embora a primeira pareça bem mais decidida - e eficiente - em seu afã de mentir e de distorcer a realidade.

A embotar a razão, a emoção faz-se presente sempre. Laços de amizade, parentesco e simpatia interligam emissor e receptor. De um grupo de familiares, de colegas ou de amigos, a mensagem passa para outros. Quem coloca em dúvida algum ponto de vista é massacrado por mais e mais informações inverídicas e de fontes duvidosas. Na impossibilidade de contestar algum dado mais evidente, o odiador saca um argumento que tem para si como definitivo: a opinião contrária ou a informação que desmente o argumento falso ferem a sua liberdade de expressão. Talvez, aqui, devido às calúnias, difamações ou injúrias que acompanham essas falas, o correto fosse usar 'agressão' no lugar de 'expressão'.

Junto, no cerne do processo, há, ainda, a crítica constante ao jornalismo e aos veículos de comunicação. Quer dizer: sem o hábito da leitura e com graves dificuldades no processo de compreensão de textos, o sujeito ainda descrê ou duvida da chamada grande imprensa, mas tende a aceitar como válido o que lhe é repassado nessas comunidades baseadas em laços sanguíneos, de afeto ou de trabalho. Não se trata aqui de desconsiderar que grupos de comunicação possuem também seus pontos de vista.

Ao longo da história brasileira, vários deles posicionaram-se também contra a democracia, basta olhar para episódios como a resistência de alguns jornais à abolição da escravatura no século 19 ou o apoio de outros ao Estado Novo, além, obviamente, da descarada defesa da derrubada do presidente João Goulart, em 1964, ou da candidatura de Fernando Collor de Mello, na eleição de 1989. O lado positivo das redes sociais é servir de um contrapeso a atitudes como essas, função que, infelizmente, tem sido subvertida pela difusão de mentiras e de ódio.

Fique claro que o 'fake', em uma sociedade verdadeiramente democrática, reforçaria o papel das 'news'. Em outras palavras, deveria provocar um efeito de valorização do jornalista como mediador e certificador noticioso. A estruturação crescente de práticas de 'fact-checking' é uma prova disso. A sua utilização, no entanto, depende de conhecimentos básicos por parte do público, o que passa por um sistema de ensino de qualidade, algo, em termos práticos, inexistente no Brasil. Assim, muito provavelmente, um texto como este aqui tenha como reação mais comentários de odiadores contumazes com certo grau de efeito, inclusive, em pessoas bem intencionadas, mas talvez ingênuas.

Há a acrescentar, ainda, a certeza de que, na vitória do 'fake' sobre as 'news', criam-se condições para o estabelecimento do obscurantismo. Pense bem. Quando a mentira se transforma em verdade, a democracia deixa de existir. Foi o que aconteceu na Alemanha hitlerista. Foi o que aconteceu na União Soviética stalinista. O jornalismo fenece junto. E textos como esse são censurados ou é proibida a sua publicação.

Luiz Artur Ferraretto é jornalista e professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Ufrgs.

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