Em janeiro de 2020, finalmente resolvi me aposentar como professora universitária, após 31 anos de uma vida plena e feliz profissionalmente na Famecos – Escola de Comunicação e Artes e Design da PUCRS. Ainda, neste mesmo mês, fui surpreendida por um convite da presidenta da ARP – Associação Riograndense de Propaganda, Liana Bazanela, para compor a diretoria, no biênio 2020-2021. Surpresa, pois quando estava pensando em dar um tempo na dinâmica deliciosamente maluca de horas de muito trabalho, leituras incessantes, correções de provas e de outras atividades pedagógicas, ser diretora de Diversidade em uma entidade de classe, seria uma das últimas coisas que pensaria em fazer naquele momento. E esse tema esteve presente na disciplina de comunicação comunitária que lecionei até me aposentar. E permanece na minha vida, já que no Brasil a luta pela diversidade não termina. Liana, como dizia, delicadamente insistiu. Eu cedi. Contudo, não sabíamos que nossas vidas mudariam e muito nos próximos meses.
Não nasce uma empresa
Entre outubro e fevereiro, tínhamos planos também de navegar em outros projetos com maior autonomia [a boa e velha utopia de viver sem as presas da produção permanente, somada ao prazer de realizar o melhor e com uma boa dose de prazer], junto de duas amigas que respeito e admiro. Muitas reuniões de planejamento. Muito café com a cabeça no futuro. Só que não contávamos com a outra surpresa de 2020. Março nos abala. E de repente a anormalidade nos avizinha dia após dia. Paramos o projeto da Tríade Comunicação. Resolvi, então, que a aposentaria deveria ser vivida por mais um bom período, como um oásis de liberdade individual. Efetivar o que não fazia era a minha nova pauta: cuidar da vida pessoal, da família, da cozinha, da casa, do jardim no sítio e ler muitos outros livros e assistir séries, o quê ainda não tinha me dado a chance. O sítio, aliás, sempre foi um lugar desejado por inúmeras vezes, já que o cansaço me tirava devagarinho a satisfação de minhas rotinas.
Detalhe relevante
Nesta caminhada, meus alunos foram a razão egoísta e afetiva de minha vida acadêmica. Eles me nutriam e ofertavam a alegria e a responsabilidade que exigia de mim mesma, no meu fazer ou melhor, fazeres. Outra particularidade de meu percurso está ligada ao meu estado de felicidade com o meu trabalho. E este princípio, desde o início de minha carreira foi respeitado.
Também neste período, desde a posse, participei de reuniões presenciais e on-line na ARP. Planejamento e projetos da gestão. Bons contatos e novos olhares. Ah! Retomei meus estudos em uma área que gosto muito: a religiosidade, ritos, fé, espiritualidade, paganismo, metodologias e práticas deste mundo, cuja grandeza nos deixam em pé. A mim, pelo menos. Seguimos. E, paralelamente, a Deus ao normal.
Pois bem, chega a pandemia de fato e a necessidade urgente de novos comportamentos. E relacionamentos, afinal o isolamento provocou uma onda on-line cada vez maior. Centenas ou mais de mensagens pelo whatsApp e o zoom – nossa mais frequente sala de reuniões e por aí afora. Em maio, meu relativo descanso é interrompido. Surge o movimento no início do ano que foi tomando o espaço das redes: o Grupo Live Marketing RS. Fui convidada por Rodrigo Machado, um dos líderes do movimento, sócio-diretor da Opinião Produtora, para nele trabalhar. Voluntariamente. Topei. Minha entrada foi com o texto manifesto “E agora José?”, que também virou vídeo. Conheci pessoas incríveis, minha paixão por eventos subiu aos céus e embora a intensidade deste processo se dê de maneira arrebatadora foi, na verdade, um presente para quebrar a monotonia e me ver frente a frente com um seleto grupo de empresários admiráveis, entre eles, Eliana Azeredo [Capacità Eventos], Ana Leite [Inventa Evento], Roberto Rimoli [Duetto Eventos] e Vini Garcia [Grupo Austral], além de parcerias também súper bacanas, como a própria ARP, Clube de Criação RS, Estação Filmes, Loop Reclame, entre outros. Sofri e sofremos juntos. A dor nos acompanha até agora. São milhares de trabalhadores desamparados e mesmo sem o setor produzir, nada impediu ao Grupo Live Marketing RS que, também, se preocupasse com suas vidas. Criamos e lançamos campanhas. Além de necessárias, foram lindas, porque solidárias e repletas de humanidade.
Até hoje meus dias têm sido em torno do Live Marketing, perdi a conta das reuniões que participei e dos muitos textos produzidos para alimentar as redes. Nossas conquistas em plenitude ainda são uma busca, mas alguns avanços com restrições foram alcançados. Tenho orgulho misturado com uma enorme tristeza [síntese das contradições que carregamos] de fazer parte desta história provocada, infelizmente, por uma doença que tira a vida de milhões de pessoas e que têm outras tentando sobreviver ao tamanho desafio que ela representa. Resgatei ainda, nesse longo processo de sete meses, a experiência da negociação, conteúdo que foi objeto, aliado à comunicação e as relações de poder, de meu mestrado e doutorado. Ensinar é um contexto, pois criei e dei esta disciplina por anos na faculdade, praticar tem outra dimensão. Se sente na alma.
Diversidade na educação
A ARP, neste ano de desafios, nos deu a possibilidade de participar da discussão e futura implantação de um projeto de inclusão digital, que tem dado a chance de resgatar, mesmo numa proposta, a cidadania, a consciência comunitária e a importância do coletivo em processos de aprendizagem, independente do tipo de instituição que o sustenta ou estimula. Também trilhado com caros colegas da Associação: Edu Prange e Andréa Schüür Macagnan, além dos incansáveis Liana Bazanela e Germano Fedrizzi Bedin, nosso executivo, que hoje significam muito mais, pois além de suas agendas profissionais e pessoais intensas, reservam um espaço importante para pensar no outro. Aquele que dá maior sentido aos nossos propósitos. E fiquei mais feliz ainda, porque um dos sujeitos desta iniciativa e mediação com a comunidade escolhida, é um ex-aluno de relações públicas, Andecler Garcia, que também respeito e muito.
Saudade e esperança: Não ao novo normal
Não uso o badalado conceito do novo normal. Não o quero. Desejo retomar o normal, pois esta anormalidade nos arrancou monstruosamente muitas coisas valiosas. Tenho saudade. Temos saudades, creio. Do mesmo jeito, mais adiante, quero muito ultrapassar o “reinventar-se”. Pra quem vive neste país e nestas condições isso não é novo. É velho, eu diria. E neste caso, prefiro a esperança que, embora numa roupagem sempre velha, nos alimenta, nesta teimosa, mania de querer dias melhores e outros projetos que estão por vir, afinal “gente quer crescer […], gente é pra brilhar […], gente quer ser feliz”. Bem-vindo 2021!
Neka Machado é diretora de Diversidade da Associação Riograndense de Propaganda – ARP.
