Lá vou eu para mais um texto de desabafo sobre o dia a dia de um jornalista. Talvez eu não seja a pessoa menos reativa do mundo, mas juro que deito a cabeça no travesseiro e reflito sobre todos os meus aprendizados. E sem querer deixar essa introdução longa demais, mas essa é uma observação humilde de um jornalista que ainda tem muito a aprender. E quando digo muito, é muito mesmo. Tenho poucos anos de formação, mas o suficiente para já ter errado bastante e aprendido na mesma proporção, além do pouco o bastante para saber que ainda não sei metade do que preciso saber.
Aprendi demais com colegas mais experientes sobre aspectos como técnica, rigor, responsabilidade e contexto histórico. Aprendi que uma vírgula mal colocada pode virar crise e que uma fonte mal checada vira vergonha pública. A velha guarda carrega um repertório que não se aprende em qualquer curso. E isso é inegável.
O que também é inegável é um certo hábito que vem no pacote: a crítica em tom de sentença judicial. Existe uma tradição quase folclórica de que tempo de redação concede licença para falar o que quiser, do jeito que quiser. É como se cada década de profissão adicionasse um carimbo invisível de “grosseria autorizada”.
Já ouvi veteranos afirmarem: “a nova geração não sabe ouvir críticas” e que “não aguentaria um dia numa redação daquela época”. Pode ser verdade. Talvez não aguentássemos mesmo. Mas começo a suspeitar que a antiga geração também não está exatamente confortável em receber uma resposta, seja ela dura, razoável ou gentil. Isso porque o contraditório é lindo no discurso, mas, na prática, ele costuma gerar um silêncio constrangedor ou o discurso: “vocês da nova geração…”, “esse garoto é rebelde…”, “atrevimento…”, entre outras clássicas.
A forma grosseira de dar ou receber feedback é simplesmente brochante. Desanima. Esfria qualquer troca. Se a intenção é ensinar, por que transformar a conversa em um teste de sobrevivência? Jornalismo não deveria ser reality de resistência emocional.
Dito isso, reforço: eu, e muitos da minha geração, aprendemos demais com quem veio antes. Muito mesmo. Mas aprenderíamos ainda mais em um ambiente menos hierárquico e mais colaborativo (quando digo menos hierárquico, não se trata de não respeitar). O jornalismo não é uma monarquia com sucessão hereditária. Não existe trono da apuração, nem coroa do lead perfeito. Existe troca.
E talvez o ponto central seja esse: precisamos gostar minimamente uns dos outros. Precisamos conviver. Trabalhar juntos. Construir pontes. Nesses anos de profissão, aprendi uma lição extremamente pragmática: negócios são feitos por pessoas. Relações sustentam projetos. Ego não fecha parceria.
Durante muito tempo, fomos ensinados a fazer Jornalismo para jornalistas. Para que os colegas reconheçam, para que o mercado valide, para que a classe respeite. E, nessa busca por reconhecimento interno, às vezes caímos em uma competição silenciosa de autoridade. Isso porque quem sabe mais, quem viveu mais, é quem pode falar mais alto.
Mas nossa essência não é essa. Jornalismo não é disputa de ego nem campeonato de cicatriz de redação. Não estamos aqui para provar quem é dono da verdade. Estamos aqui para servir à sociedade. Para informar com responsabilidade. Para traduzir o mundo com honestidade. Se perdermos esse exemplo, pouco importa qual geração está “certa”. Estaremos todos errados.
Talvez a maturidade profissional não esteja em endurecer o tom, mas em ampliar a escuta. Porque o Jornalismo é maior do que qualquer geração. Inclusive – ou especialmente – a nossa. Talvez, com um pouco mais de serenidade, o entendimento do que se quer passar fica mais fácil de interpretar!
Velha guarda, eu (que já tenho um espírito mais velho) estou de ouvidos e coração aberto para aprender cada vez mais. Estamos juntos sempre, mas com bom senso de ambos, é claro!
João Fernando Júnior é jornalista e editor do Coletiva.net


3 Comments
Muito bem linda reflexão parabéns João Fernando Junior.
Perfeita análise. “Relações sustentam projetos. Ego não fecha parceria.”
Texto muito lúcido e necessário. O jornalismo evolui quando experiência e novas ideias caminham juntas, com respeito e diálogo. Parabéns J. Fernando