Por Hélio Ademar Schuch
Na Economia Política duas explicações foram formuladas para responder à seguinte pergunta sobre a construção dos mercados: é a demanda (procura) que provoca a oferta de produtos e serviços ou o inverso? Para Karl Marx e John Maynard Keynes, é a demanda que determina a oferta; para Jean-Baptiste Say, é a oferta que determina a demanda. Os três autores são clássicos.
O mais antigo é Say, seu Tratado de Economia Política é publicado em 1803 e onde, analisando os mercados, acaba por concluir que é a oferta que gera demanda, um entendimento que ficou conhecido como Lei de Say. Seguindo, Marx, no primeiro livro de O Capital, publicado em 1867, rebate a ideia, e após Keynes, em A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, lançado em 1936, também deduz que é a demanda que provoca a oferta.
Em resumo, enquanto Say estipula que é a oferta que gera demanda, Marx e Keynes indicam o fator “salário/renda” para determinar o tamanho da oferta; desta maneira, a demanda somente existe se é estimulada via poder de compra. Para estes dois autores o capitalismo estaria fadado a crises exatamente por isso, já que estruturalmente esta economia gera automaticamente desemprego, no enfoque de Keynes, e miserabilidade dos trabalhadores (desemprego e salários meramente de subsistência, resultando na pauperização da força de trabalho) no enfoque de Marx.
Como solução, Keynes aponta a intervenção do Estado na economia no sentido de criar emprego; Marx prevê seu fim, pelas suas contradições. E de fato, o capitalismo é uma economia imperfeita, restando por isso a necessidade de intervenções do Estado para sua regulação.
No entanto, a economia virtual parece não se comportar desta maneira. Sua lógica, como cada vez mais se estabelece, é a idéia de gratuidade. Em um mercado físico, entre a oferta e a procura existe o elo do dinheiro: para o consumo é preciso poder de pagamento. Mas, e quando há o oferecimento grátis de produtos e serviços, como acontece via internet? Como se constituiria o valor econômico de sites/portais, desde os de informação jornalística até provedores de informação e entretenimento?
Uma primeira análise remeteria a resposta para as propagandas expostas e para o pagamento que permite acessos, em alguns casos, e é certo que isto traz algum retorno financeiro, mas o que predomina é a situação de gratuidade. Mercadologicamente os sites repetem normas e procedimentos dos veículos convencionais para sua viabilização econômica. Contudo, a gratuidade – e que está em sentido contrário da regra básica de uma economia de mercado – certamente vai se fixar neste mundo virtual. Mas então, como se viabiliza economicamente este tipo de negócio? Pode-se sugerir que a sua lógica não se baseia em um pagamento em moldes tradicionais, mas no fator de captação de tempo dos usuários, em um ambiente de audiência potencial onde, pelo menos intuitivamente, se percebe que a demanda se dispõe a consumir, exatamente por ser grátis, o que é ofertado, conforme preferências individuais.
A internet pode ser considerada uma destruidora de valor econômico se for entendida na forma costumeira de se pensar e medir negócios tradicionais. Mas o que interessa, e o que faz valer um site de sucesso, não é o retorno financeiro tradicional, como até agora conhecido, mas o retorno no sentido de que a sua estruturação, e por extensão, o valor do negócio, é o acúmulo de tempo absorvido de seus usuários. Este é o dado a ser exibido, e que é, de fato, o maior agregador de valor econômico.
Tempo é sinônimo de valor. A teoria valor-trabalho, criada por Adam Smith, e exposta em A Riqueza das Nações (“Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”), publicado em 1776, determina que o trabalho é a medida para o estabelecimento do valor econômico e é mensurado pelo dispêndio de tempo. Ou seja, algo tem valor segundo a quantidade de tempo de trabalho consumida em sua produção. Um entendimento aceito pelos principais economistas políticos que sucederam o autor em referência. O tempo é a magnitude do valor econômico porque pode ser mensurado, já que é finito.
Por esta limitação é um patrimônio para quem o detém e para quem o obtém. Cada acesso de um usuário significa alguma fração de seu tempo de vida. Logo, quando um site é acessado, frações de tempo de vida são transferidas e, somadas, resultam em um estoque de tempos que vai definir o valor econômico do negócio.
Em uma economia virtual, o mecanismo de criação de valor econômico é o tempo, mas não um tempo materializado, cristalizado, em produtos/serviços, mas o tempo transferido, do usuário a um site, ou, em outras palavras, um recurso que a demanda detém e que cede para a oferta em troca de alguma utilidade. Esta transferência configura-se no pagamento do usuário, é será o que vai sustentar a posição do site em seu mercado de atuação, rebatendo não apenas em sua viabilidade, mas, principalmente, na sua valorização econômica. Afinal, número de acessos e o tempo dedicado ao site, ou seja, audiência, não é o que define o êxito ou fracasso do empreendimento e que vai decidir, com efeito, o seu valor econômico?
A internet possibilitou esta transformação do valor econômico. Aqui não se trata de geração de algo físico, mas de oferta e consumo de informações, ou seja, utilidades que são assimiladas na forma de conhecimento, captadas para uso mental e não para outras formas de consumo. Desta forma, se em uma economia baseada em bens físicos o que estimula a oferta é a condição financeira da demanda, conforme Marx e Keynes, no mundo virtual se percebe que o limitante seria tempo. Este, no entanto, é o recurso natural de qualquer pessoa. E, quando conectada a internet, torna-se uma usuária não apenas potencial, mas real, capaz de trocar este seu recurso por informações que considera úteis.
Neste mundo o mercado de demanda não é de “salário/renda”, mas de vidas, cujo substrato é o tempo. Neste ambiente, o mercado da oferta induz a criação e expansão de sua própria demanda, conforme a Lei de Say. Em primeiro lugar, pela gratuidade aparente do que é oferecido, com utilidade crescente em um mercado competitivo, não apenas econômica, mas pessoalmente; em segundo, pela massificação do uso da internet; em terceiro, sociologicamente, pelo movimento de mimetismo entre grupos e classes sociais. E por último, mas não menos importante, pela elasticidade do mercado desta demanda, porque todos os usuários são iguais “na capacidade de pagamento”, pois possuem igualmente o mesmo recurso – tempo, ao contrário das restrições, e assim, inelástico, do mercado pensado por Marx e Keynes.
É certo que, como próprio de uma economia de mercado, a concorrência decide a sobrevivência e a estruturação dos negócios. Por certo os sites são enquadrados neste regime de competição e como qualquer outro empreendimento haverá sempre o desaparecimento de alguns, o surgimento de outros e a solidificação de poucos. Neste sentido, esta economia ainda faz valer suas leis. Mas o que se enfatiza é que a base de expansão da demanda para este tipo de oferta se constitui no recurso “tempo das pessoas” e não no recurso dinheiro.
